Tarifaço: Um terço das exportações segue sob tarifa ameaçando cadeias industriais bilaterais

O Encontro Empresarial Brasil–Estados Unidos 2025, realizado pela Amcham Brasil na última terça-feira (25), deixou claro que, apesar de avanços diplomáticos recentes, o impacto do tarifaço ainda impõe fortes restrições a segmentos estratégicos da indústria brasileira. Embora o governo americano tenha retirado produtos como celulose, madeiras específicas e parte do agronegócio da lista desde o ajuste tarifário de julho de 2025, itens de maior valor agregado como o papel para imprimir e escrever e as máquinas e equipamentos permanecem sujeitos à combinação de 10% de tarifa-base mais o adicional de 40%.

O total de 50% vem redesenhando cadeias produtivas, represando investimentos e acendendo alertas em empresas brasileiras diretamente ligadas ao mercado americano, como é o caso do setor de papel, representado no evento pela presidente LATAM e vice-presidente sênior da Sylvamo, Tatiana Kalman.

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Com metade das duas milhões de toneladas de papel produzidas no Brasil destinadas à exportação, e um mercado americano que precisa importar entre 15% e 20% de sua demanda anual, o tarifaço tornou inviáveis as vendas brasileiras, mesmo com a conhecida competitividade do país em eucalipto, celulose e papel, disse Tatiana.

“Os últimos meses foram marcados por “um turbilhão de incertezas”, represando decisões relevantes de investimento para a Sylvamo. A incerteza de quando, ou se, as tarifas vão cair muda tudo. Por outro lado, a dependência americana por papel importado cria um risco adicional para os próprios Estados Unidos, já que a restrição da oferta pode pressionar preços e alimentar a inflação”, disse a Presidente da empresa.

Entre os setores industriais, máquinas e equipamentos se destacam pela intensidade dos impactos. Segundo José Velloso, presidente da ABIMAQ: “25% das exportações brasileiras do setor tinham como destino os Estados Unidos antes do tarifaço, essa participação despencou para apenas 13%. Em setembro, o primeiro mês de impacto pleno, as exportações caíram 13%, e em outubro o tombo acelerou para 42%. Alguns segmentos específicos, como máquinas rodoviárias, por exemplo, registraram quedas superiores a 50%”.

“É como um embargo”, resumiu Velloso. “Não há como conviver com uma tarifa dessa magnitude. E como nossos produtos não aparecem no radar da inflação americana, não entramos nas exceções.” O dirigente também ressaltou que, dos mais de 2.500 itens inicialmente tarifados, ainda cerca de um terço permanece sem alívio, justamente aqueles de maior valor agregado.

O diagnóstico mais amplo da indústria foi apresentado por Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI. Ela lembrou que cada US$ 1 bilhão exportado para os EUA gera 24 mil empregos no Brasil, e mais de 50% do comércio bilateral envolve insumos industriais, impactando cadeias completas.

Ao mesmo tempo, diante do avanço dos Estados Unidos em negociações com Ásia, Europa e América Latina, Constanza reforçou que a competitividade brasileira corre risco se o impasse não for resolvido rapidamente. “A qualidade da nossa pauta com os Estados Unidos não permite virar a página e focar apenas em diversificação. É uma relação de 200 anos, de ganhos para ambos os lados”, afirmou a Gerente.

“Para mitigar impactos internos, o governo brasileiro ampliou o escopo do Programa Brasil Soberano. Nosso objetivo é oferecer crédito, facilitação e suporte técnico enquanto avança a negociação com Washington, explicou Geraldo Alckmin, Presidente da República em exercício e Ministro de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Da esquerda para a direita Embaixador Fernando Pimentel MRE Tatiana Prazeres MDIC e Abrão Neto Amcham

“Agora, empresas cujas exportações para os Estados Unidos sofreram impacto superior a 1%, antes, o mínimo era 5%, podem solicitar apoio, assim como empresas indiretamente afetadas por fornecedores que também tenham sido atingidos”, complementou Tatiana Prazeres, Secretária de Comércio Exterior do MDIC.

Do lado americano, analistas destacaram a combinação de volatilidade estratégica e urgência econômica. A pesquisadora Fernanda Magnotta, do CEBRI, caracterizou o governo Trump como “transacional e volátil”, capaz de usar a imprevisibilidade como ferramenta de barganha. Ela lembrou que, embora os Estados Unidos operem sob pressão inflacionária e crescente preocupação com emprego, temas geoestratégicos como minerais críticos e terras raras, nos quais o Brasil é altamente competitivo, colocam o país em posição favorável nas negociações.

Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group, reforçou que o tarifaço integra não apenas a geopolítica, mas também o equilíbrio fiscal e o cenário eleitoral. Segundo ele, os consumidores americanos começarão a sentir mais fortemente os efeitos inflacionários das tarifas em 2026, o que pode pressionar o governo a buscar uma solução antes das eleições legislativas das Estados Unidos, que ocorrerão no próximo ano.

O embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor geral da OMC, acrescentou: “a maior ameaça, e simultaneamente a maior oportunidade, é evitar que o Brasil seja forçado a escolher entre os Estados Unidos e a China, já que a rivalidade entre as duas potências abre espaço para o Brasil se posicionar como parceiro seguro e estratégico, especialmente em alimentos, energia, minerais críticos e tecnologias ligadas à transição energética”.

Azevêdo também destacou a vulnerabilidade jurídica da tarifa adicional de 40%, baseada no International Emergency Economic Powers Act (IEPA) ou “Lei de poder para emergência econômica internacional”, que será julgada pela Suprema Corte Americana no início de 2026. Uma eventual derrubada da medida fragilizaria a posição americana e aceleraria a busca por um acordo. “O horizonte para resolver o tarifaço é curto — estamos falando de três a seis meses”, afirmou o embaixador.

Tanto Magnotta quanto Cascione ressaltaram que as eleições nos dois países, Presidência no Brasil e legislativo nos EUA terão papel decisivo. Pesquisas indicam a possibilidade de que os democratas retomem a maioria na Câmara americana, o que limitaria a capacidade de ação do governo Trump. Já no Brasil, a aproximação do calendário eleitoral reduz o espaço político para uma negociação mais adiante.

Para o setor privado, a leitura é clara: o acordo precisa ser fechado antes que os dois calendários eleitorais avancem simultaneamente.Executivos, diplomatas e analistas convergem em um ponto: o momento é crítico, urgente e irrepetível.

Se o Brasil conseguir articular interesses público–privados, aproveitar a pressão inflacionária americana, demonstrar sua relevância estratégica e fortalecer a diplomacia técnica, há espaço real para uma resolução rápida do tarifaço, destravando exportações, reativando investimentos e estabilizando cadeias industriais. Tatiana Kalman sintetizou o sentimento geral com precisão: estamos cautelosamente otimistas. E talvez essa seja a melhor definição possível neste momento: otimismo, sim, mas com pressa.

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Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

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