Tarifas, eleições e incerteza: o que os EUA sinalizam para o futuro da relação comercial com o Brasil

Discussões sobre tarifas, investigações comerciais e eleições de meio de mandato reforçam a necessidade de estratégias de diversificação e diálogo para o setor de base florestal brasileiro

A relação econômica entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova fase de complexidade. Se, de um lado, o comércio bilateral segue estratégico e há esforço dos dois lados para preservar uma agenda positiva, de outro, o avanço de tarifas, investigações comerciais específicas e a crescente centralização da política externa e comercial no Executivo norte-americano vêm tornando o ambiente menos previsível para exportadores brasileiros.

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As discussões realizadas no Encontro Empresarial BR-US 2026, promovido pela Amcham Brasil, reforçaram essa leitura. Ao reunir especialistas, representantes do governo brasileiro e vozes do setor privado norte-americano, os painéis apontaram que a política tarifária dos Estados Unidos deixou de ser um episódio conjuntural e passou a compor uma nova estrutura de pressão comercial. Para o Brasil, isso já produziu efeitos concretos em 2025 e pode continuar moldando o comércio bilateral nos próximos anos.

No caso do setor de base florestal, o impacto foi desigual. A celulose acabou ficando fora do tarifaço aplicado no ano passado, preservando sua competitividade no mercado americano. Já papéis e produtos de madeira não tiveram o mesmo tratamento, o que evidencia como a política comercial dos EUA passou a produzir efeitos seletivos ao longo das cadeias exportadoras.

A política tarifária dos EUA deixou de ser temporária

Uma das conclusões mais importantes extraídas do encontro é que a nova política comercial norte-americana não deve ser tratada como uma perturbação passageira. A avaliação foi reforçada por Ana Elena Sancho Calvino, diretora associada do Global Trade Alert, ao afirmar que a infraestrutura tarifária hoje em vigor nos Estados Unidos “veio para ficar”.

Segundo ela, 2025 marcou uma ruptura importante. Três em cada dez medidas de política comercial anunciadas pelos Estados Unidos ao longo do ano envolveram tarifas, num salto significativo em relação ao padrão observado nas últimas administrações. O número de ações tarifárias registradas em 2025 superou com folga a média anual observada nos governos Obama e Biden e também ficou bem acima do verificado no primeiro mandato de Donald Trump.

A especialista explicou que a decisão da Suprema Corte americana de derrubar as tarifas aplicadas com base no International Emergency Economic Powers Act (IEPA) não significou o fim da ofensiva tarifária. Em vez disso, a Casa Branca migrou para outras bases legais, como a Seção 122, de caráter temporário, e a Seção 301, usada para investigações de práticas consideradas desleais ou discriminatórias. Além disso, seguem em vigor as tarifas setoriais aplicadas com base na Seção 232, justificadas por razões de segurança nacional.

Na prática, isso significa que a política tarifária americana mudou de instrumento, mas não de direção. E essa mudança não afeta todos os países e setores da mesma forma. O acesso ao mercado norte-americano passou a variar cada vez mais de acordo com o parceiro comercial, o setor atingido, o tipo de produto e, em alguns casos, até mesmo a empresa envolvida.

O Brasil sentiu o impacto no comércio bilateral

Do lado brasileiro, a leitura é de que 2025 foi um ano extremamente desafiador. Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do MDIC, resumiu o período como um momento em que “o tabuleiro do comércio internacional foi jogado para cima e as peças ainda não se encaixaram”.

Os números ajudam a sustentar esse diagnóstico. Segundo a secretária, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 6,6% em 2025, ao mesmo tempo em que o Brasil perdeu cerca de 300 empresas exportadoras naquele mercado. O dado ganha ainda mais peso porque os Estados Unidos continuam sendo um destino estratégico para a pauta exportadora brasileira, especialmente para produtos de maior valor agregado e conteúdo tecnológico.

Tatiana destacou que o mercado americano interessa ao Brasil não apenas pelo tamanho, mas pela qualidade do intercâmbio. É o principal destino das exportações brasileiras com maior sofisticação industrial, o que torna o impacto das barreiras ainda mais sensível. Setores afetados pelo tarifaço, segundo ela, foram justamente aqueles com maior dificuldade de redirecionamento, como máquinas e equipamentos, muitas vezes produzidos sob encomenda.

Ao mesmo tempo, o governo buscou ressaltar um contraponto importante: apesar da retração nas vendas para os Estados Unidos, o Brasil bateu recorde de exportações em 2025, com expansão de 3,3% nas vendas totais ao mundo e aumento no número de empresas exportadoras. Para a secretária, esse resultado mostra a resiliência do comércio exterior brasileiro e a capacidade das empresas de buscar novos mercados diante do choque tarifário.

Essa leitura é especialmente útil para entender o momento do setor de base florestal. Embora parte da cadeia tenha mantido acesso ao mercado norte-americano, a mudança de cenário comercial impôs um ambiente mais desafiador e reforçou a necessidade de diversificação geográfica e de gestão mais cuidadosa do risco comercial.

Setor de base florestal foi afetado de forma desigual

No caso da indústria de base florestal, o impacto das medidas americanas não foi homogêneo. A celulose, um dos principais produtos da pauta exportadora brasileira, acabou sendo excluída das tarifas impostas no ano passado, o que preservou a fluidez do comércio nesse segmento. Já papéis e produtos de madeira não receberam o mesmo tratamento, o que afetou a competitividade de parte relevante da cadeia.

Esse recorte é importante porque mostra que o problema não está apenas no aumento direto do custo de acesso ao mercado norte-americano, mas na criação de um ambiente de incerteza e seletividade, no qual cadeias inteiras passam a operar sob diferentes graus de exposição. No caso do setor de base florestal, isso significa que empresas mais concentradas em produtos transformados ou de maior processamento tendem a sentir mais fortemente a volatilidade da política comercial dos EUA do que aquelas focadas em commodities preservadas das medidas.

Ao mesmo tempo, essa diferenciação reforça a importância de olhar o setor de forma integrada. Mesmo quando um elo da cadeia fica de fora da tarifa, ele continua exposto ao ambiente geral de imprevisibilidade, às mudanças regulatórias e ao comportamento dos mercados compradores.

O lado americano também vê custo nas tarifas

Outro ponto relevante dos debates foi o fato de a crítica às tarifas não ter vindo apenas de fora dos Estados Unidos. John G. Murphy, vice-presidente sênior da U.S. Chamber of Commerce, afirmou que a comunidade empresarial americana também considera o atual ambiente tarifário um peso relevante para os negócios.

Segundo ele, a principal dificuldade não está apenas no custo da tarifa em si, mas na incerteza constante sobre sua duração, abrangência e substituição por novos instrumentos. Na avaliação da Câmara de Comércio dos EUA, essas tarifas amplas funcionam, na prática, como um imposto pago pelos próprios americanos e têm prejudicado a manufatura e outros segmentos da economia americana.

Murphy reforçou ainda que o Brasil passou a ocupar uma posição particularmente sensível dentro dessa nova arquitetura comercial. Isso porque, além da aplicação geral das medidas tarifárias, o país se tornou alvo de uma investigação específica com base na Seção 301, situação que, segundo ele, só se repete hoje em relação à China.

Na leitura do executivo, a investigação coloca o Brasil em uma posição “bastante exposta”, sobretudo porque a agenda em análise vai além das tarifas e inclui temas como comércio digital, tarifas preferenciais, regulação de mercados digitais, acesso ao mercado de etanol e outras frentes regulatórias e comerciais.

Essa fala ajuda a ampliar a dimensão do problema. A tensão comercial entre Brasil e Estados Unidos não se resume mais a sobretaxas pontuais sobre bens. Ela começa a se expandir para uma disputa mais ampla sobre regras, tecnologia, comércio digital e condições de acesso ao mercado, o que aumenta o grau de incerteza para vários setores exportadores.

Ainda existe espaço para uma agenda positiva

Apesar do ambiente adverso, os painéis também apontaram que ainda há espaço para uma agenda positiva entre os dois países. Tatiana Prazeres insistiu na necessidade de trabalhar os temas que aproximam Brasil e Estados Unidos, como comércio, investimentos, integração produtiva, tecnologia, agricultura, energia, propriedade intelectual e facilitação de comércio.

Na visão do governo brasileiro, não faz sentido que os Estados Unidos respondam por uma fatia tão reduzida do comércio total brasileiro, considerando o peso da economia americana e o potencial da relação bilateral. O objetivo, portanto, não é abandonar esse mercado, mas reconstruir condições para que ele volte a crescer de forma mais previsível.

Luis Renato Rua, secretário de Comércio e Relações Internacionais do MAPA, reforçou esse ponto ao lembrar que os Estados Unidos continuam sendo o terceiro principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, atrás apenas da China e da União Europeia. Embora o agro tenha ampliado presença na Ásia e no Oriente Médio, o mercado americano permanece estratégico, tanto em volume quanto em qualidade da relação.

Ele também destacou que a relação entre os dois países vai muito além do fluxo de mercadorias e inclui tecnologia, investimentos, produção local, insumos e presença de empresas americanas no Brasil, além da crescente atuação de grupos brasileiros nos Estados Unidos. Esse raciocínio pode ser estendido ao setor de base florestal, cuja competitividade está cada vez mais ligada à integração produtiva, à inovação e à capacidade de atender mercados exigentes com escala e sustentabilidade.

Midterms podem aumentar o ruído, mas não garantir mudança

Se o presente da relação comercial bilateral já é complexo, o futuro também tende a continuar carregado de incertezas. O painel sobre as eleições de midterms nos Estados Unidos mostrou que o cenário político interno americano pode até alterar o equilíbrio de forças em Washington, mas dificilmente mudará por completo o eixo da política comercial no curto prazo.

Anya Prusa, sócia do Allbright Stonebridge Group, explicou que a eventual retomada da Câmara pelos democratas pode ampliar o poder de bloqueio legislativo, a abertura de investigações e a pressão política sobre o Executivo. Ainda assim, destacou que, em temas de comércio e política externa, o Congresso perdeu muito espaço nas últimas décadas e transferiu boa parte da autoridade prática ao presidente.

Em outras palavras, mesmo que as eleições de novembro tragam mais oposição a Trump no Congresso, isso não significa necessariamente uma reversão da política tarifária. O mais provável, segundo a análise apresentada, é um cenário de maior disputa política e menos capacidade de ação coordenada.

Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa, acrescentou que há hoje uma tendência de perda de maioria republicana na Câmara, impulsionada pela queda de popularidade de Trump, pelo desgaste com o custo de vida e pela repercussão política da guerra com o Irã. Ainda assim, ela também alertou para o nível elevado de polarização e para a possibilidade de um ambiente prolongado de contestação política, o que pode ampliar a instabilidade sem necessariamente produzir uma nova política comercial.

Para o Brasil, isso significa que as eleições de meio de mandato devem ser acompanhadas de perto, mas sem ilusões de mudança rápida. O ambiente bilateral pode ganhar novo tom político, especialmente em temas como democracia, clima e direitos humanos, mas a agenda tarifária tende a continuar fortemente concentrada no Executivo.

Relação seguirá estratégica, mas mais difícil

A principal conclusão dos quatro painéis é que a relação Brasil–Estados Unidos segue estratégica, mas está entrando em uma fase mais difícil de administrar. O tarifaço do ano passado já mostrou que o impacto sobre o comércio bilateral é real. A investigação 301 contra o Brasil indica que a exposição pode aumentar. E as eleições de meio de mandato, embora relevantes, não garantem uma inflexão clara no rumo da política comercial americana.

Para o setor de base florestal, isso significa operar em um ambiente em que a previsibilidade caiu e a seletividade das medidas aumentou. A preservação da celulose nas rodadas tarifárias anteriores foi um fator positivo, mas não elimina os riscos que recaem sobre papéis, produtos de madeira e outros segmentos da cadeia. Mais do que nunca, o cenário exige diversificação de mercados, capacidade de adaptação e uma estratégia diplomática que combine diálogo com gestão de risco.

Ao mesmo tempo, os painéis também mostraram que ainda há disposição, tanto no governo brasileiro quanto em parte do setor privado americano, para reconstruir pontes e buscar uma agenda mais construtiva. A questão é que essa agenda positiva terá de avançar em meio a uma arquitetura comercial mais protecionista, mais politizada e menos estável do que a que prevaleceu nas últimas décadas.

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Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

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