Completando quase dois meses do início da cobrança de tarifas na importação de produtos brasileiros, o setor madeireiro viu seus volumes e valores de exportação despencaram em agosto. Segundo dados do portal Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), liberados no início de setembro, o volume da cesta de produtos acompanhados pela WoodFlow caiu 25% na comparação com julho de 2025. Em termos de valores a redução foi igualmente acentuada, de 29% para o mesmo período.
Ao compararmos os mesmos produtos, com o mês de agosto do ano passado, a redução em volume e preço é de 5% e 14%, respectivamente. A diferença anual não parece tão grande, não é mesmo? Mas precisamos lembrar que 2024 foi um ano considerado ruim por muitos empresários, então qualquer redução comparada ao ano passado é algo muito impactante para o setor.
Mas a paralisação de embarques e redução na carteira de pedidos nas indústrias brasileiras trouxe graves consequências. Segundo a Associação Brasileira de Madeira Mecanicamente Processada (Abimci), 4 mil empregos foram encerrados em agosto, em decorrência das tarifas.
Conforme a nota oficial da entidade, se o governo mantiver o mesmo posicionamento e as mesmas tratativas quanto à negociação com os EUA, mais 4,5 mil empregos podem desaparecer nos próximos 60 dias. “Desde o anúncio da taxação, em 9 de julho, até 15 de setembro, somente na amostragem da Abimci, foram registradas em torno de 4 mil demissões; cerca de 5,5 mil trabalhadores estão em férias coletivas e 1,1 mil em layoff”, diz a nota.
Redução de jornada, férias coletivas e demissões são apenas uma das consequências. Além da perda de mão de obra especializada, as empresas estão perdendo mercado. Outra consequência direta é a redução do consumo nas cidades sede das empresas. Cidades que muitas vezes dependem muito das empresas do setor madeireiro.
Segundo a STCP Engenharia de Projetos, o segmento mais afetado do setor madeireiro foi o de molduras de pinus, que possui maior exposição ao mercado norte americano. A queda foi de 56%, tanto em volume quanto em valor e deve continuar caindo.
Exportações do setor madeireiro para os EUA
Segundo levantamento feito pela STCP, os principais produtos brasileiros exportados são, compensado de pinus, madeira serrada de pinus, móveis de madeira, molduras e portas. Cada um possui uma porcentagem diferente de exposição ao mercado norte americano, variando de 98%, no caso das molduras a 17% no caso dos móveis (considerando os volumes embarcados em 2024). Veja no quadro a seguir a representação das exposições de cada mercado.

Para buscar um resultado da aplicação das tarifas, houve ainda uma comparação entre o volume exportado de janeiro a agosto de 2024 e 2025 e ainda a comparação entre julho e agosto de 2025.
A moldura de pinus apresentou uma redução de 15% no acumulado do ano, comparando com igual período de 2024. Porém, como mencionei anteriormente, a queda entre julho e agosto foi de 56%.
No topo da lista devido a sua relevância em volume e valor estão compensado de pinus e madeira serrada de pinus. No acumulado de janeiro a agosto de 2025, houve um incremento de 4% nos valores pagos ao compensado de pinus, porém uma redução de 37% no valor de agosto, na comparação com julho. Os mesmos dados para o serrado de pinus são 18% na comparação entre janeiro e agosto de 2024 e 2025 e uma redução de 48% entre agosto e julho de 2025.
Acredito que esses números podem sofrer mais quedas nos próximos meses, pois alguns embarques já estavam navegando quando a tarifa entrou em vigor, em agosto.
Tempo para acomodação
Outro fator importante, caso não tenhamos algum avanço nas negociações das tarifas com os EUA é que o mercado deverá se acomodar a essa nova realidade. O período é de rever custos e processos e, quem sabe, investir para produzir para novos mercados.
Ainda acreditamos que será difícil outro país no mundo conseguir produzir os volumes que o Brasil produz e suprir essa demanda no curto prazo. Algumas empresas já falam em acordos para absorver parte das tarifas, enquanto clientes deverão assumir a outra parte desse “reajuste” nos preços.
Os próximos meses serão de austeridade. O foco é a resiliência e a capacidade de se alocar em novos mercados, mesmo que no médio prazo.
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