Se eu pudesse dar apenas um conselho a um estudante universitário, ele seria surpreendentemente simples: não espere a formatura para começar a construir sua carreira.
Pode parecer óbvio, mas essa é uma das armadilhas mais comuns da vida universitária. Muitos jovens acreditam que a graduação é uma espécie de sala de espera para o mercado de trabalho. Frequentam as aulas, estudam para as provas, conquistam boas notas e imaginam que, ao final do curso, estarão naturalmente preparados para disputar as melhores oportunidades. Infelizmente, o mercado mudou e continua mudando em uma velocidade que poucas universidades conseguem acompanhar.
O diploma continua sendo importante, sempre será. Ele representa dedicação, disciplina e uma base técnica indispensável para qualquer profissão. Mas ele deixou de ser o principal diferencial. Hoje, as organizações procuram algo muito mais difícil de encontrar: profissionais que saibam aprender, colaborar, adaptar-se e transformar conhecimento em resultados.
Ao longo da minha carreira em Recursos Humanos, entrevistando candidatos, contratando profissionais e acompanhando o desenvolvimento de líderes, observei algo que sempre chamou minha atenção. Os jovens que iniciavam a carreira com mais oportunidades raramente eram apenas aqueles que apresentavam os melhores históricos acadêmicos. Em comum, eles possuíam outra característica: já haviam experimentado a profissão antes mesmo de receber o diploma.
Eles entendiam que existe uma enorme diferença entre conhecer um assunto e saber utilizá-lo para resolver problemas reais. É exatamente aí que muitos estudantes desperdiçam uma oportunidade valiosa. A universidade ensina a profissão, a prática ensina a exercê-la. Isso não significa diminuir a importância do conhecimento técnico, pelo contrário.
Nenhum engenheiro constrói uma carreira sem dominar cálculos, processos e tecnologia. Nenhum administrador toma boas decisões sem compreender estratégia, finanças e gestão. Nenhum profissional da saúde atua com excelência sem profundo embasamento científico. As competências técnicas continuam sendo o alicerce de qualquer profissão, mas o mercado já percebeu que elas, sozinhas, não garantem bons resultados.
Imagine dois estudantes com desempenho acadêmico semelhante. O primeiro concluiu todas as disciplinas com excelentes notas, o segundo também teve bom desempenho, mas aproveitou a graduação para participar de uma empresa júnior, realizou estágio, apresentou trabalhos em congressos, desenvolveu um projeto de pesquisa, fez trabalho voluntário e aprendeu a trabalhar com pessoas completamente diferentes dele. Quem chega mais preparado?
A resposta parece evidente. Não porque um saiba mais do que o outro, mas porque um deles já começou a transformar conhecimento em competência e isso faz toda a diferença.
Competências como comunicação, pensamento crítico, colaboração, liderança, criatividade e inteligência emocional não aparecem prontas no dia da formatura. Elas são desenvolvidas quando o estudante aceita desafios, convive com pessoas diferentes, aprende a negociar, recebe críticas, erra, corrige a rota e tenta novamente.
Como professora universitária que fui, costumo dizer que as melhores aulas da universidade nem sempre acontecem dentro da sala de aula, acontecem quando um grupo precisa organizar um congresso, quando uma equipe da empresa júnior perde um cliente e precisa encontrar uma solução, ou quando uma ação voluntária obriga o estudante a enxergar uma realidade completamente diferente da sua. Essas experiências ensinam algo que nenhum livro consegue transmitir por completo e matrizes curriculares obrigatórias talvez não contemplem.
David Kolb, referência mundial em aprendizagem experiencial, explica que o aprendizado acontece quando vivemos uma experiência, refletimos sobre ela e aplicamos esse conhecimento em novos desafios. Em outras palavras, aprender não é acumular informação, é transformar experiência em competência. Talvez por isso o estágio continue sendo uma das etapas mais importantes da formação profissional. Mas gostaria de compartilhar uma história que ilustra um passo além.
Há alguns anos acompanho um executivo que dividiu comigo a sua trajetória. Ele me contou que, quando cursava Engenharia Florestal, diferentemente da maioria dos colegas, sua maior preocupação não era conseguir o primeiro emprego. Era entender que profissional o mercado precisaria dali a dez anos. Essa pergunta mudou completamente sua trajetória.
Enquanto estudava o setor florestal, começou a perceber que o crescimento dos investimentos em ativos florestais, bioeconomia, créditos de carbono e fundos especializados criaria uma necessidade cada vez maior de profissionais capazes de compreender tanto a engenharia quanto a lógica financeira desses negócios. Ele enxergou uma oportunidade onde poucos olhavam.
Durante uma de nossas conversas, lembro de ele dizer que ainda muito jovem não queria ser apenas um excelente engenheiro florestal. Queria ocupar exatamente essa interseção entre o conhecimento técnico e o mercado financeiro. A partir dali, ele construiu um planejamento reverso de carreira: primeiro definiu onde queria chegar. Depois se fez a pergunta mais importante: “O que esse profissional precisa saber para ser reconhecido pelo mercado?”
A resposta não estava apenas em uma pós-graduação. Ele mapeou as empresas pelas quais deveria passar, os projetos que precisaria vivenciar, as experiências que agregariam valor, os cursos que faria no Brasil e as formações internacionais que complementariam sua visão de negócio. Cada decisão passou a ter um propósito, o estágio deixou de ser apenas uma obrigação acadêmica, transformou-se na primeira etapa de um projeto profissional.
As mudanças de empresa não aconteceram por acaso, cada movimento acrescentava um novo repertório à carreira que ele havia decidido construir.
Os anos passaram. Hoje, esse profissional reúne um conjunto de competências extremamente raro. Conversa com a mesma segurança sobre manejo florestal, produtividade, investimentos, valuation de ativos florestais e estratégias de negócios. Não por acaso, tornou-se um profissional altamente valorizado e disputado pelo mercado.
Sempre que lembro dessa história, penso que o maior diferencial daquele jovem nunca foi sua inteligência, e sim sua capacidade de construir a carreira com intenção. Esse é um aprendizado que qualquer estudante pode levar para sua própria vida.
Talvez você ainda não saiba exatamente onde deseja chegar; e tudo bem não saber esta resposta, mas pode começar a observar as transformações da sua profissão, participar de congressos, feiras técnicas e fóruns de discussão. Pode acompanhar pesquisadores, profissionais e empresas que estão moldando o futuro da sua área.
Ou quem sabe desenvolver projetos que ampliem seu repertório, aprender um novo idioma. Pode produzir conteúdo, escrever artigos, participar de debates e construir um portfólio que demonstre aquilo que sabe fazer. Pode, principalmente, deixar de ser um espectador da própria formação.
Outro aspecto que merece atenção é a construção da reputação profissional. Hoje, um currículo conta apenas parte da história. O restante está nas experiências que você viveu, nos problemas que ajudou a resolver, nas pessoas com quem trabalhou e na forma como decidiu compartilhar seus aprendizados.
O LinkedIn, por exemplo, deixou de ser apenas uma plataforma de vagas. Tornou-se uma vitrine profissional. Quando utilizado com autenticidade, permite mostrar projetos, aprendizados, reflexões e interesses, aproximando estudantes de pessoas e oportunidades que dificilmente surgiriam apenas pelo envio de currículos. No entanto, nenhuma estratégia será suficiente se faltar curiosidade.
As ferramentas mudarão, novas profissões surgirão, outras desaparecerão e a inteligência artificial continuará transformando atividades que hoje parecem indispensáveis. Porém, existe uma competência que continuará sendo valorizada independentemente da tecnologia disponível: a capacidade de aprender.
Aprender, desaprender e reaprender.
Talvez esse seja o verdadeiro patrimônio profissional das próximas décadas. Por isso, gostaria de terminar deixando uma reflexão.
Quando um recrutador olhar para o seu currículo daqui a alguns anos, ele enxergará apenas uma sequência de cursos concluídos ou encontrará a história de alguém que aproveitou a universidade para construir repertório, desenvolver competências, criar relacionamentos, assumir desafios e preparar-se intencionalmente para o futuro?
O diploma continuará abrindo portas. Contudo, serão as escolhas feitas muito antes da formatura que determinarão quais delas permanecerão abertas ao longo da sua carreira.
CLIQUE AQUI E LEIA O PDF COMPLETO DA COLUNA CARREIRAS & OPORTUNIDADES DE AGOSTO/2026 – O PAPEL



