Este mês, caros leitores, quero propor uma reflexão sobre algo que tenho visto com frequência em minhas consultorias e conversas com líderes empresariais: a crença de que, quanto mais indicadores uma organização possui, mais controle tem sobre seus resultados.
Pode-se nomear esta ideia como “O mito da abundância numérica”. Trata-se de uma ideia sedutora, porém, ela é falsa. A ilusão de quantidade costuma substituir a busca pela qualidade das medições. Multiplicam-se dashboards e relatórios, como se a profusão de números bastasse para garantir uma boa gestão.
Mas o excesso de métricas não traz clareza — somente traz ruído. Um estudo realizado no setor público australiano constatou que apenas cerca de 6% das organizações possuíam indicadores realmente “significativos”, ou seja, quantitativos, monitoráveis no tempo e diretamente ligados à estratégia. Outro levantamento internacional aponta que aproximadamente 70% das organizações falham na escolha de Indicadores-Chave de Desempenho (Key Performance Indicators – KPIs), justamente porque eles não estão alinhados à sua estratégia.
Esses números reforçam o paradoxo contemporâneo da gestão: nunca se mediu tanto — e, ao mesmo tempo, nunca se compreendeu tão pouco.
Tenho observado que, em muitas empresas, os indicadores se transformaram em uma vitrine de marketing corporativo. São muitas vezes escolhidos não para melhorar o desempenho, mas para alimentar a ilusão de domínio e projetar a imagem de sucesso e controle que se exige — uma performance calculada para tranquilizar o mercado, agradar a liderança e reafirmar prestígio dentro da própria equipe.
Em vez de orientar decisões, servem a apresentações que demonstram eficiência mais do que a promovem. São os que chamo de Indicadores da Vaidade — métricas que impressionam no slide, mas não mudam o resultado.
Essa prática apresenta características fáceis de reconhecer — e perigosamente comuns nas organizações. Dentre estas estão:
• A sobrecarga de métricas: quanto mais indicadores se criam, menos se entende o negócio. A obsessão por medir tudo transforma a gestão em um ritual de aparência, não de aprendizado;
• A desconexão com a estratégia: escolhe-se o que é fácil de medir, não o que é decisivo. O indicador vira número, não norte;
• Os números sem aderência à realidade: os dados mudam, mas a realidade não. Sobem e descem nos relatórios, mas nada se transforma — e, pior, muitas vezes induzem o gestor ao erro, gerando decisões baseadas em ilusões; e
• As métricas de vitrine: criadas para impressionar chefes e colegas, mas incapazes de gerar aprendizado ou provocar melhoria. Servem à aparência, não à evolução.
O resultado é uma gestão saturada de dados e pobre em discernimento. Enquanto os painéis brilham nas telas, as decisões se tornam mais lentas, mais reativas e menos conectadas com a realidade.
A empresa acredita estar controlando o rumo, quando, na verdade, apenas observa — fascinada — o reflexo de seus próprios números. Se o número não muda a conversa na sala de decisão, ele é apenas ornamento.
LEIA AQUI O TEXTO COMPLETO PUBLICADO NA REVISTA O PAPEL – NOVEMBRO/2025



