2,2 milhões de árvores plantadas por dia

POR PAULO HARTUNG E ADRIANO SCARPA

Entre conflitos geopolíticos com consequências drásticas, uma crise climática que bate à nossa porta e o enfraquecimento do multilateralismo, a humanidade caminha hoje sobre solo incerto.

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Nesse cenário complexo, o setor de árvores cultivadas desponta como um bom exemplo de um Brasil que deu certo. Esta indústria vem forjando, ao longo das últimas décadas, um modelo eficiente de desenvolvimento sustentável. Todos os dias são plantadas 2,2 milhões de árvores para fins comerciais.

A base da engrenagem produtiva do setor está assentada em 10,5 milhões de hectares de áreas cultivadas. No desenho da paisagem, o setor adota o manejo sustentável em mosaico, técnica que intercala os plantios comerciais com vegetação nativa. Esse arranjo inteligente cria corredores ecológicos, protege os recursos hídricos e viabiliza o abrigo e reprodução da fauna e flora. As empresas do setor de árvores cultivadas conservam em suas propriedades mais de 7 milhões de hectares de áreas naturais – para exemplificar, trata-se de uma área superior à do estado do Rio de Janeiro.

Com seus produtos, o setor já alcança mais de 4 bilhões de pessoas em todo o planeta, fornecendo desde embalagens biodegradáveis de papel até tecidos de viscose. Apenas no último ano, as exportações dessa indústria somaram US$ 14,9 bilhões, consolidando o país como um fornecedor de produtos renováveis e de origem sustentável.

A expansão do setor florestal ocorre sobre solos previamente antropizados e pastagens de baixa produtividade – segundo o Atlas da Pastagem, da Universidade Federal de Goiás (UFG), o Brasil possui cerca de 100 milhões de hectares de terras degradadas. Esse crescimento acontece hoje sobretudo no Mato Grosso do Sul. O estado respondeu por 80% dos 234 mil hectares de expansão do setor em 2024, demonstrando como a silvicultura pode impactar contextos regionais com geração de valor compartilhado.

O fôlego desse crescimento é traduzido em um ritmo impressionante: o setor abre, em média, uma nova unidade industrial a cada ano e meio. Trata-se de uma força descentralizadora que leva investimentos de bilhões de reais para o interior do país, gerando empregos qualificados onde antes havia estagnação econômica. E o impacto social é mensurável: um estudo realizado pela ESG Tech revelou que as cidades brasileiras com presença do setor florestal registram um PIB per capita quase 30% superior à média nacional e apresentam avanços nítidos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e no Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC).

Além da produção industrial tradicional, uma nova fronteira estratégica se consolida no setor de plantios florestais: o de empresas dedicadas à restauração florestal e silvicultura de espécies nativas. Empresas pioneiras nessa frente, como Biomas, Carbon2Nature Brasil, Mombak, re.green e Symbiosis estão redesenhando a lógica da conservação ambiental ao transformá-la em uma atividade economicamente viável. Essas empresas vêm estruturando modelos de negócio robustos que envolvem a geração de créditos de carbono e a comercialização de produtos madeireiros e não madeireiros.

Tais iniciativas têm atraído vultuosos investimentos de grandes empresas globais de tecnologia. Só para dar dois exemplos, a Symbiosis captou investimentos do Restore Fund da Apple, um fundo voltado ao desenvolvimento de soluções climáticas, aliando o cultivo sustentável de madeira nativa à regeneração florestal no sul da Bahia. Já a re.green firmou um acordo com a Microsoft para a aquisição de 3,5 milhões de créditos de carbono, viabilizando o restabelecimento ecológico de áreas críticas na Amazônia e na Mata Atlântica.

Diante da urgência climática, o mundo olha para o Brasil em busca de saídas factíveis e seguras. Essa atração se materializa tanto pelos aportes em reflorestamento e créditos de carbono quanto pelo consumo de bioprodutos renováveis e recicláveis de origem florestal. A transição para uma economia de baixo carbono exige o compromisso de substituição sistemática dos materiais de origem fóssil, e as árvores cultivadas despontam como a solução natural para suprir essa demanda, enquanto contribuem com o sequestro de gás carbônico da atmosfera, a conservação da biodiversidade, a proteção dos recursos hídricos e do solo e a provisão de importantes serviços ecossistêmicos.

O cenário internacional não deve ser lido apenas como desafiador, mas como uma convocação histórica para o Brasil. O planeta demandará infraestrutura para produção de energia limpa, minerais críticos para a transição energética e alimentos em escala.

Temos amplas reservas minerais, ostentamos uma das matrizes energéticas mais renováveis do globo e temos terras antropizadas para o avanço da agricultura. O setor de árvores cultivadas, ao entrelaçar o desenvolvimento socioeconômico com a regeneração ambiental, oferece ao país e ao mundo muito mais do que bioprodutos: oferece a prova viva de que a prosperidade econômica e a natureza podem criar raízes e crescer em solo compartilhado.

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