Índice de confiança do empresário industrial

Na coluna Estratégia e Gestão de Agosto/2026, temos um resumo do indicador “Índice de Confiança do Empresário Industrial” (ICEI), medido regularmente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

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O ICEI é um indicador qualitativo, utilizado para medir mudanças de tendência na produção industrial, ou seja, auxilia na previsão do produto industrial e, por conseguinte, do Produto Interno Bruto (PIB). A pesquisa se baseia em um conjunto de perguntas com foco em dois períodos temporais:

I. O primeiro avalia o sentimento do empresário com relação aos últimos 6 meses, ou seja, mostra a sua percepção passada; e

II. O outro mede as mesmas perguntas com relação às expectativas para os próximos 6 meses. Resumindo, uma perspectiva futura.

Os indicadores são agrupados em dois conjuntos de dados:

A. A percepção passada e futura com relação à economia, ou seja, uma visão além dos portões da empresa; e

B. A percepção passada e futura com relação à própria empresa. Em outras palavras, uma visão dos portões para dentro.

Com base neste conjunto de recortes, o ICEI mostra um Índice de Condições Atuais (foco no passado) e um Índice de Expectativa (foco no futuro). A métrica dos índices considera notas que variam entre 0 e 100. Valores acima de 50 pontos indicam confiança ou expectativa positiva. Valores abaixo indicam falta de confiança ou baixa expectativa. Valores próximos a 50 representam neutralidade ou indiferença. Já índices próximos a 0 ou a 100 representam extremos das respectivas percepções.

Para a análise temporal, escolhi manter a série mais longa possível: últimos 16 anos e meio. Neste período, apenas em termos econômicos internos, tivemos uma crise financeira interna (auge entre 2013 e 2016, o que ocasionou no impeachment da presidente) e a crise sanitária internacional (auge em 2020), como paralisação forçada de várias cadeias produtivas, no período.

No que tange às exportações, a indústria brasileira vem sofrendo sucessivos e crescentes impactos dos principais blocos econômicos mundiais. Entre 2010 e 2013, União Europeia e Estados Unidos intensificaram barreiras sanitárias e ambientais contra produtos agrícolas brasileiros. Entre 2014 e 2016, Europeus e Asiáticos impuseram medidas antidumping contra calçados e produtos siderúrgicos brasileiros. Perto de 2019, as tensões comerciais entre Estados Unidos e China geraram efeitos indiretos: Brasil ganhou espaço no fornecimento de soja à China, mas enfrentou tarifas americanas sobre aço e alumínio, como represália.

Na vigência da crise sanitária mundial (2020 a 2022), as exportações brasileiras de alimentos tiveram que se adaptar a exigências adicionais, aumentando custos e maior dependência da China. Mais recentemente, Europa, Estados Unidos e China vêm adotando um conjunto de medidas protecionistas que envolvem escalonamento de cotas, tarifas extras e regras de origem e rastreabilidade sem justificativa comercial, impondo cada vez mais pressão para a indústria nacional.

Vencidas as apresentações, vamos aos números. A Figura 1 mostra a evolução do ICEI para a Indústria da Transformação. Em praticamente todo o período, é fácil perceber que a percepção das Condições da Economia estiveram sistematicamente pior avaliadas do que as Condições da Empresa. O índice geral acaba sendo uma “média” entre os dois. Na maior parte do tempo, o indicador esteve abaixo de 50, o que mostra que a percepção do empresário não tem sido boa há mais de uma década e meia.

Agora vamos repetir a análise considerando apenas a Indústria de Celulose e Papel (ver Figura 2). Aqui, a percepção do empresário com a própria empresa também foi mais positiva do que com a economia. Na maior parte do tempo desses mais de 16 anos, o empresário se sentiu com confiança limitada.

É interessante notar que tanto na Figura 1 como na Figura 2 os picos de falta de confiança se deram em dois momentos muito significativos: o auge da crise financeira que quebrou a economia brasileira, em 2015, e a Covid-19, em 2020. Em ambas as ocasiões, as notas foram muito similares.

Agora, vamos avaliar como foi a percepção do empresário, no mesmo período, porém pensando nas perspectivas futuras. A Figura 3 mostra este recorte para a Indústria da Transformação. Os picos de expectativa baixa mais uma vez se concentraram em 2015 e 2020. Nos dezesseis anos e meio, é fácil perceber que o índice esteve a maior parte do tempo acima da nota 50, mostrando que o empresário industrial é tradicionalmente mais otimista com o futuro, do que com os resultados passados. Aqui também a visão interna (expectativa com a empresa) é tradicionalmente maior do que com a visão externa (expectativa com a economia).

Por fim, repetindo este recorte, mas agora com a Indústria de Celulose e Papel (ver Figura 4), temos uma situação muito similar. O auge da falta de perspectiva se deu nos mesmos períodos (2015 e 2020). Na parte maior parte do tempo, o índice esteve acima de 50, mostrando que o empresário do setor é mais otimista com o futuro do que com os resultados já obtidos.

Para finalizar, vamos nos concentrar no período mais recente do horizonte de análise. Na Figura 1, percebe-se um claro cenário de estabilidade do indicador pós-covid (o chamado “novo normal”, lembram disso?) até o término do 3.º trimestre de 2022. Dali em diante, a percepção do empresário caiu fortemente e vem se reduzindo mês a mês, principalmente com relação ao indicador da economia. Esse mesmo cenário ocorreu também na Indústria de Celulose e Papel (Figura 2), mas a queda da percepção tem sido mais drástica e volátil.

Na percepção futura, a mudança da percepção também é nítida (Figuras 3 e 4): ao final de 2023, há um degrau na queda de expectativa tanto no empresário da Indústria da Transformação como no da Indústria de Celulose e Papel. A diferença é que, na celulose e papel, a queda tem sido mais expressiva.

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Marcio Funchal
Fundador da Marcio Funchal Consultoria.

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