Competitividade sob pressão: estratégias para navegar em um Brasil de custos em alta e mercado incerto

Caros leitores, vivemos um daqueles momentos em que a realidade política e econômica do País impõe desafios agudos à competitividade. As políticas públicas oscilam entre contradições e improvisos, a economia expõe suas fragilidades com mais nitidez, e os mercados internacionais — atentos ao cenário institucional — começam a se fechar para o Brasil por razões claramente políticas.

Tudo isso compõe um ambiente de custos de produção em elevação, que pressiona as operações e corrói margens de lucro — do reajuste em contratos com fornecedores à folha de pagamento mais cara. O crédito encarecido dificulta novos investimentos e amplia o peso das dívidas existentes. Mas os obstáculos à competitividade vão além.

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A carga tributária elevada consome tempo e recursos que poderiam estar voltados à inovação. Tarifas logísticas caras, estradas ineficientes e processos burocráticos travam entregas, atrasam projetos e aumentam o custo de servir ao cliente. A insegurança regulatória e a lentidão das políticas públicas afastam investidores e impedem o planejamento de longo prazo.

No dia a dia, o gestor se vê obrigado a revisar preços com mais frequência, renegociar contratos, adiar contratações e operar com margens cada vez mais apertadas. Planejar, hoje, virou um ato de coragem — e um teste constante de capacidade de adaptação.

Neste ambiente, a margem para erro é mínima — e a pressão sobre líderes e organizações é máxima. A competitividade, nesse contexto, deixa de ser um diferencial e se torna uma condição de sobrevivência.

É nesse cenário que neste artigo convido você a uma reflexão estratégica: como enfrentar esse ciclo adverso sem perder o rumo? Como manter a saúde do negócio quando o ambiente parece conspirar contra a previsibilidade? E o mais importante: o que as empresas que resistem — e até crescem — em meio à turbulência estão fazendo de diferente?

Vamos, juntos, compreender como algumas empresas não apenas enfrentam, mas se reinventam. Afinal, em tempos de escassez e instabilidade, resiliência não é acaso: exige investimento, método e, sobretudo, estratégia.

O preço da resiliência no Brasil de 2025

Manter a operação de pé num cenário como este não é apenas desafiador; é, muitas vezes, exaustivo. O que está em jogo não é só a rentabilidade, mas a capacidade de resistir sem perder coerência, relevância e liquidez. E isso tem um preço alto, que nem sempre aparece nos relatórios financeiros: o custo da resiliência.

O Brasil fechou o primeiro semestre de 2025 com a taxa Selic em 15% ao ano — uma das mais altas do mundo em termos reais. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), esse patamar está cerca de 5,1 pontos percentuais acima da taxa neutra. Na prática, significa crédito caro, investimentos adiados e menos espaço para financiar inovação, expansão ou capital de giro.

Os levantamentos da CNI mostram que as taxas médias de juros para empresas subiram de 20,6% no fim de 2024 para 24,3% em junho de 2025. No setor industrial, os juros elevados estão entre os principais entraves ao crescimento. O impacto é imediato: sem investir, as empresas perdem velocidade, capacidade de resposta e diferencial competitivo.

A inflação oficial (IPCA) também segue pressionando. Em junho de 2025, o índice acumulado em 12 meses foi de 5,35% — sexto mês consecutivo acima da meta de 3% definida pelo Conselho Monetário Nacional. O IGP-M, após breve deflação de –0,49% em maio, voltou a subir e fechou julho com alta de 2,96% no acumulado de 12 meses.

Quando custos sobem — seja por insumos, salários ou tarifas — e o mercado não absorve o repasse, as margens encolhem. É um corte silencioso, mas implacável, que reduz acapacidade de competir em preço, reposicionar produtos ou investir em melhorias.

O quadro se complica ainda mais diante das fragilidades estruturais do país. Carga tributária elevada, regras complexas e burocracia consomem tempo e energia que poderiam ser dedicados à inovação. Segundo pesquisa da Contabilizei, 75% dos empreendedores estão preocupados com os impactos da reforma tributária, citando a instabilidade jurídica e tributária como barreiras à competitividade. Soma-se a isso um sistema logístico caro e pouco confiável — especialmente para empresas dependentes do transporte rodoviário e de cadeias longas de suprimento.

O resultado é previsível: menos agilidade, decisões estratégicas atrasadas e dificuldade para competir em mercados exigentes. Muitas empresas acabam presas no modo sobrevivência, apagando incêndios no dia a dia em vez de construir diferenciais sustentáveis. E, quando a liderança concentra toda a energia apenas em sobreviver, a competitividade pouco a pouco se deteriora.

Ainda assim, há quem avance mesmo contra a maré. No primeiro trimestre de 2025, os investimentos em ativos fixos cresceram 9,1%, puxados por infraestrutura e tecnologia, segundo o IBGE. É a prova de que, em mar revolto, alguns preferem ajustar as velas a recolhê-las.

Essa resiliência não é fruto do acaso. Ela nasce de método, decisão e coragem, e começa em escolhas que vão da renegociação inteligente de contratos ao uso estratégico de automação, dados e redes de colaboração.

Mas a pergunta que fica é: o que essas empresas estão fazendo de diferente? Quais estratégias, na prática, têm permitido não apenas enfrentar, mas transformar um cenário tão hostil?

Decisões que separam líderes de sobreviventes

Em um ambiente de pressões múltiplas, o que diferencia empresas que apenas resistem daquelas que seguem competitivas é a qualidade das decisões — especialmente nos detalhes da gestão cotidiana. Navegar num cenário como o atual exige mais do que cortes e contenção: exige escolhas inteligentes, consistentes e integradas.

Na gestão financeira, a prioridade passou a ser a preservação da capacidade de manter o negócio funcionando com autonomia. Diante da elevação do custo do dinheiro e da redução das linhas de crédito, empresas estão reorganizando seus planos e trocando investimentos grandes por soluções com impacto direto no curto prazo.

Um movimento cada vez mais comum é a substituição de gastos robustos com ativos físicos, como máquinas, veículos ou data centers — por despesas recorrentes mais flexíveis, como locação de equipamentos, softwares em nuvem ou serviços contratados por assinatura. A lógica é clara: reduzir o desembolso imediato, ganhar previsibilidade e proteger o caixa em um ambiente instável. Também cresce o uso do orçamento base zero, em que cada gasto precisa ser justificado do zero, com foco naquilo que realmente sustenta a estratégia.

Na eficiência operacional, a busca por processos mais enxutos se intensificou. Muitas empresas estão mapeando suas rotinas de ponta a ponta para eliminar desperdícios, reduzir complexidade e cortar etapas que não agregam valor. Automatizar tarefas não basta, é preciso redesenhar o fluxo para que o trabalho aconteça com menos esforço, mais clareza e menos retrabalho. Essa revisão se estende à cadeia logística, que deixou de ser apenas um custo para se tornar uma fonte de vantagem competitiva. O uso de rotas otimizadas, estoques dinâmicos, sistemas de rastreamento, compartilhamento de cargas e integração com fornecedores tem permitido entregar mais valor com menos recursos — além de reforçar imagem e confiança junto aos clientes.

Na gestão comercial, as empresas que mais avançam são aquelas que entenderam a importância da previsibilidade. Ofertas modulares, contratos de serviço recorrente, pacotes com escopo claro e opções de pagamento flexível ganharam espaço especialmente em setores onde o cliente também está sob pressão financeira. Em vez de forçar grandes vendas, essas empresas constroem relacionamento, confiança e fidelização, garantindo estabilidade na geração de receita. O uso de dados para entender o comportamento do cliente e ajustar propostas com mais precisão também virou prática recorrente.

Em pessoas e talentos, a palavra-chave é produtividade. Com menos margem para expandir equipes ou oferecer aumentos expressivos, as empresas passaram a investir na performance do time atual. Programas de capacitação interna, Upskilling (aprimoramento de competências) e Reskilling (requalificação profissional) têm sido acelerados, buscando maior aderência entre as competências disponíveis e os desafios reais do negócio. A gestão da produtividade passou a considerar não apenas entregas em volume, mas valor gerado: metas mais claras, menos reuniões improdutivas e uso de ferramentas que ajudem os profissionais a serem eficazes — sem esgotamento. Ao mesmo tempo, iniciativas de engajamento — como propósito bem comunicado, reconhecimento simbólico e maior flexibilidade — têm ajudado a reter talentos em um ambiente adverso.

Na tecnologia e dados, a inteligência artificial saiu, finalmente, da vitrine para o chão da operação. De forma pragmática e acessível, empresas passaram a usar IA para automatizar tarefas administrativas, gerar relatórios, prever demandas, analisar comportamento de clientes, identificar padrões de inadimplência ou até criar conteúdos de marketing. Integrada a plataformas de BI e sistemas de gestão, a IA tem ampliado a velocidade, a assertividade e a qualidade das decisões — e, com modelos por assinatura, se tornou viável até para organizações de menor porte.

Na estratégia e inovação, o pragmatismo também reina. Muitas empresas vêm adotando ciclos curtos de experimentação, testando novos modelos com pequenos pilotos e escalando apenas o que gera valor comprovado. Parcerias com startups, fornecedores e até concorrentes se tornaram alternativas reais para inovar com menos risco e menos investimento. A inteligência está em fazer melhor com menos, mas sem deixar de avançar.

Essas organizações não têm todas as respostas, mas têm algo mais importante: uma mentalidade estratégica em tempo real. Elas entendem que a crise não espera, e que não há espaço para inércia. Reduzem o que não gera valor, protegem o essencial e investem com foco. Mais do que resistir, estão descobrindo formas de competir — mesmo sob pressão.

Finalizando, em tempos de instabilidade, a velocidade com que uma empresa sente os efeitos de uma crise está diretamente ligada ao grau de maturidade de sua gestão. Organizações que cultivam processos sólidos, lideranças preparadas e uma cultura orientada a dados e resultados não apenas reagem melhor, elas antecipam movimentos, ajustam o rumo com mais precisão e protegem o que é essencial.

Essa maturidade não nasce no calor da turbulência, mas nos períodos de relativa estabilidade, quando há espaço para revisar estratégias, investir em capacitação, consolidar práticas e criar reservas — financeiras, operacionais e até emocionais. Por isso, diante de choques externos, essas empresas são as últimas a sentir o impacto e, quase sempre, as primeiras a se reerguer.

Não há atalhos para chegar lá. É preciso disciplina para manter o foco, coragem para cortar o que não agrega e visão para investir aonde o retorno vai além do trimestre. Empresas que compreendem isso encaram a crise não como um evento isolado, mas como parte de um ciclo inevitável, e, por isso, tratam a resiliência não como instinto, mas como competência estratégica.

Se a tempestade é inevitável, o que realmente diferencia é a forma como se navega. Cabe a cada líder decidir se será levado pela corrente ou se conduzirá o barco com clareza de rota. Porque, no fim, competitividade sob pressão não é apenas sobreviver: é atravessar a tormenta com a convicção de que, do outro lado, a empresa estará mais forte, mais inteligente e mais preparada para o próximo desafio.

Quando o capital é caro, o mercado instável e o erro tem alto preço, surge a pergunta inevitável: sua gestão tem maturidade para manter o rumo e sair da crise à frente?

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Sustentabilidade Como Fator De Competitividade

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Rogério Parente
Graduado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e especializações em Visão Estratégica, Planejamento e Controle Gerencial, Governança Corporativa, entre outras. Com 35 anos de experiência nas áreas de Tecnologia e Gestão empresarial, sendo 26 anos como executivo na Hewlett Packard. Hoje, Consultor em Gestão Empresarial, Docente em MBA, Coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias (GEAPE Tech) no Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRASP) e membro da Diretoria do Instituto Paulista Excelência da Gestão (IPEG).

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