Descarbonização na indústria de papel: o fim das caldeiras a carvão

A urgência climática e os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris aceleram a transição para uma economia de baixo carbono. Com a regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), a indústria nacional passa a operar sob novas diretrizes ambientais, impulsionando ações concretas de descarbonização.

Nesse cenário, o setor de papel e celulose já se destaca por adotar uma matriz energética majoritariamente renovável, baseada em biomassa. No entanto, ativos remanescentes de alta emissão, como caldeiras a carvão, ainda representam um obstáculo à neutralidade climática. Diante desse contexto, este artigo explora como a substituição dessas tecnologias por fontes limpas pode acelerar a descarbonização industrial, fortalecendo a competitividade e ampliando os ganhos em eficiência e sustentabilidade.

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O fim das caldeiras a carvão e o avanço das tecnologias limpas

Historicamente utilizadas como fonte térmica, as caldeiras a carvão representam hoje um dos principais entraves à descarbonização completa da indústria. Embora sua presença no setor de papel e celulose brasileiro tenha diminuído significativamente, ainda existem unidades que operam com esse combustível, sobretudo em indústrias mais antigas ou com restrições regionais de suprimento energético.

A substituição por alternativas de menor emissão já é realidade em diversas empresas, com destaque para a gaseificação de biomassa, que converte resíduos florestais em gás combustível limpo. Uma caldeira a carvão em operação contínua pode emitir entre 90.000 e 140.000 toneladas de CO₂ por ano, enquanto sistemas de biomassa operam com emissões líquidas próximas de zero, considerando o ciclo do carbono.

Outras rotas emergentes incluem a eletrificação direta de processos térmicos e o uso de hidrogênio verde, ainda em estágio de maturação. Essas tecnologias não apenas reduzem emissões, como também se alinham às exigências regulatórias e ao desempenho esperado por mercados globais.

Casos reais: como o setor está liderando a transição

A indústria de papel e celulose tem se movimentado de forma consistente rumo à substituição de fontes fósseis, com investimentos robustos em unidades de energia limpa. Um dos exemplos é a Eldorado Brasil, com a operação da UTE Onça Pintada, maior usina de biomassa do país, abastecida por resíduos florestais do processo produtivo.

Outro destaque é o Projeto Cerrado, da Suzano, que incorpora sistemas de alta eficiência energética, priorizando biomassa e licor negro. Já a Klabin estabeleceu metas de neutralidade de carbono com base na metodologia SBTi, adotando soluções de baixa emissão em suas unidades. Esses movimentos demonstram a viabilidade técnica e econômica da transição energética no setor.

Oportunidades e desafios na substituição tecnológica

A substituição de caldeiras a carvão exige mais que tecnologia. Requer planejamento técnico, capacitação e gestão eficiente de ativos. Os desafios incluem investimento inicial elevado, integração com sistemas existentes, confiabilidade (MTBF), disponibilidade operacional e curva de aprendizado para operação e manutenção.

Além da substituição total, retrofits têm ganhado espaço como solução viável. Entre as opções estão: conversão para alimentação por biomassa, cogeração com licor negro e integração de sistemas de recuperação de calor. Essas soluções permitem ganhos em eficiência com menor impacto em paradas produtivas.

Em âmbito regulatório, o setor encontra apoio em iniciativas como os créditos de carbono e linhas de financiamento específicas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Além disso, exigências de sustentabilidade impostas por grandes compradores internacionais tornam a descarbonização um fator crítico de competitividade.

Caminhos para a Transição

A substituição de caldeiras a carvão é parte essencial da jornada rumo à neutralidade climática. Para além da redução de emissões, essa transição representa uma oportunidade estratégica de ganho em eficiência e valorização institucional. O setor de papel e celulose tem plenas condições de liderar esse movimento, e o momento de acelerar projetos estruturantes é agora.

Ênio Borges é Diretor Executivo de Operações na Timenow, onde lidera projetos de grande porte com foco em engenharia multidisciplinar, soluções digitais e desenvolvimento de negócios.

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Enio Borges
Ênio Borges é Diretor Executivo de Operações na Timenow, onde lidera projetos de grande porte com foco em engenharia multidisciplinar, soluções digitais e desenvolvimento de negócios.

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