A indústria de papel e celulose brasileira reúne características que a colocam em posição privilegiada para avançar na agenda de descarbonização. A combinação entre base florestal renovável, biomassa disponível em escala e processos industriais já relativamente eficientes cria um ponto de partida sólido. Ainda assim, o setor convive com desafios que, se enfrentados de forma estruturada, podem ampliar sua competitividade em um cenário global cada vez mais orientado por requisitos ambientais, rastreabilidade e eficiência operacional.
A engenharia, nesse contexto, deixa de ser apenas suporte técnico e passa a ser o vetor que transforma ambições climáticas em ganhos concretos de eficiência, produtividade e redução de emissões.
Embora os grandes grupos tenham avançado de maneira consistente em automação, uso de energia renovável e digitalização, o setor como um todo é mais diverso do que a vitrine costuma mostrar. Dados do Observatório Setorial Territorial Brasil indicam que existem mais de 30 mil estabelecimentos presentes na cadeia de fabricação de celulose, papel e produtos de papel no país, e mais da metade deles é de pequeno porte.
Esse retrato evidencia que, embora as grandes liderem a adoção de tecnologias de baixo carbono, há um espaço significativo para que empresas de menor porte avancem em eficiência energética, gestão de processos e modernização gradual de suas operações. É justamente nesse espaço que reside uma das maiores oportunidades do setor e a engenharia oferece caminhos escalonáveis, que permitem iniciar a transição com medidas de baixo custo e rápida implementação, capazes de gerar ganhos imediatos de eficiência e redução de emissões.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o setor de papel e celulose responde por cerca de 1% das emissões industriais globais e tem reduzido sua intensidade energética a pouco mais de 1% ao ano — ritmo insuficiente para alinhar-se às metas de neutralidade climática até 2050. A IEA destaca que a etapa de secagem permanece como a fase mais intensiva em energia do processo produtivo, o que reforça a importância de soluções de eficiência acessíveis também para médias e pequenas empresas.
Estudos da IEA indicam que intervenções simples em sistemas térmicos — como correção de ar em excesso e otimização de combustão — podem reduzir entre 5% e 15% do consumo de combustível em caldeiras industriais, contribuindo para a descarbonização. Já a revisão de isolamentos térmicos, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Conservação de Energia (Abesco), gera economia no consumo de vapor, enquanto melhorias em sistemas de distribuição podem evitar perdas em plantas menos atualizadas.
No campo elétrico, a IEA estima que a instalação de inversores de frequência em motores críticos reduz o consumo em até 30%, dependendo da aplicação. A instrumentação de processos e o uso de controle avançado, amplamente documentados em relatórios da CNI, elevam a estabilidade operacional e reduzem variabilidades que impactam diretamente o consumo de energia. A U.S. EPA destaca ainda que programas de manutenção preditiva reduzem custos de manutenção e aumentam a confiabilidade dos equipamentos, reforçando o potencial de ganhos operacionais mesmo em plantas de menor porte.
Essas iniciativas, já consolidadas nas grandes empresas do setor, podem ser replicadas por plantas menores com retorno rápido, impacto direto na competitividade e contribuição consistente para a redução de emissões. A partir desses primeiros passos, abre-se espaço para investimentos intermediários, como retrofits de equipamentos, modernização de sistemas de automação e integração de dados de processo em plataformas de gestão energética.
Esses movimentos fortalecem a capacidade de diagnóstico, aumentam a confiabilidade operacional e preparam o terreno para projetos estruturantes, como a substituição de combustíveis fósseis por biomassa ou biogás, cogeração mais eficiente e digitalização ampla com integração entre operação e tecnologia da informação. A engenharia permite que essa jornada seja conduzida de forma progressiva, alinhada à realidade financeira de cada empresa e orientada por ganhos mensuráveis.
No campo florestal, a ampliação da rastreabilidade e o uso de tecnologias de monitoramento também representam oportunidades relevantes. Grandes empresas já avançam em inventários digitalizados, sensoriamento remoto e modelagem de carbono, mas as menores podem adotar soluções mais simples e igualmente eficazes, capazes de fortalecer a conformidade com exigências internacionais e agregar valor à cadeia.
A crescente demanda global por produtos com comprovação de origem e impacto ambiental reduzido tende a beneficiar empresas que investirem em sistemas de monitoramento e gestão florestal mais robustos. O setor de papel e celulose brasileiro tem, portanto, a possibilidade de ampliar sua contribuição para a descarbonização ao mesmo tempo em que fortalece sua competitividade em âmbito mundial.
A combinação entre ganhos de eficiência, redução de custos operacionais e atendimento a requisitos ambientais mais rigorosos cria um ciclo virtuoso para a descarbonização: empresas que investem em engenharia e modernização não apenas reduzem emissões, mas também aumentam produtividade, melhoram margens e ampliam acesso a mercados.
A transição energética, quando tratada como estratégia industrial e não apenas como agenda ambiental, torna-se um caminho para geração de valor no longo prazo. A trajetória do setor mostra que avanços importantes já foram alcançados, mas também revela um potencial significativo ainda a ser explorado.
A engenharia, com sua capacidade de diagnosticar, otimizar e transformar processos, é o elemento que permite que essa evolução ocorra de forma estruturada, escalonada e economicamente viável. Ao combinar inovação, eficiência e responsabilidade ambiental, o setor pode consolidar sua posição como referência global e, ao mesmo tempo, ampliar sua competitividade em um mercado que valoriza cada vez mais desempenho, transparência e impacto climático reduzido.

* Vinicius Bravim é Diretor de Engenharia, Projetos de Capital, Asset Management e PMO da Timenow, com mais de 20 anos de experiência nos setores de papel e celulose, mineração e infraestrutura. Atua na liderança de projetos industriais de grande porte, modernização operacional, gestão de ativos e eficiência industrial, com foco em competitividade, confiabilidade operacional e transformação sustentável. Ao longo da carreira, participou de importantes projetos do setor de papel e celulose, incluindo operações e expansões para empresas como Suzano, Klabin, Veracel e Arauco.



