Ter equipes que pensam de forma igual – a falsa harmonia que sabota os resultados

Quero dividir este mês com os leitores um aprendizado que carrego desde o início da minha vida profissional. Nos anos 1980, trabalhei com um chefe suíço que tinha um estilo direto de ensinar. Em uma dessas conversas, ele soltou uma frase que parecia simples, mas que nunca mais saiu da minha cabeça: “nunca forme uma equipe onde todos pensem de forma igual, pois isso não trará resultados diferentes dos atuais”.

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Na época, confesso, não dei a devida importância. Soava como um conselho prático, desses que se guarda para situações pontuais. Mas, com o passar dos anos, percebi que havia muito mais ali. Era, na verdade, uma visão estratégica sobre como manter uma organização viva, criativa e competitiva diante das mudanças inevitáveis.

O interessante é que, naquele período, prevalecia a ideia de que uniformidade era sinônimo de eficiência. No Brasil – e em boa parte do mundo corporativo – consenso era quase uma medalha de honra. Discordar soava como afronta. Participei de reuniões em que as decisões eram tomadas rapidamente, sob aplausos, mas a verdade é que havia um silêncio pesado no ar: ninguém ousava questionar, ninguém queria parecer diferente.

Com o tempo, entendi o perigo disso. Quando todos pensam igual, os erros se repetem sem que ninguém perceba. As oportunidades passam despercebidas. As soluções viram cópias do que já foi feito antes. Aquela aparência de eficiência escondia, na prática, um bloqueio à inovação.

Por isso, sempre que lembro do conselho do meu chefe suíço, enxergo nele mais do que uma lição de liderança. Vejo um alerta que segue atual. Em um mundo em constante transformação, movido por tecnologia, economia e mudanças sociais, não é possível competir com equipes que funcionam como espelhos umas das outras. É preciso abrir espaço para vozes diferentes, olhares contrastantes e até para o desconforto da discordância construtiva. Sem isso, corremos o risco de caminhar em círculos, enquanto o mundo segue adiante.

O problema da homogeneidade

Esse fenômeno tem nome: Groupthink. Na prática, é a síndrome do consenso fácil. Ele cria um ambiente em que discordar soa quase como trair o time, e o silêncio é confundido com sinal de aprovação. As reuniões parecem rápidas, eficientes. Decisões saem sem grandes atritos. Mas, no fundo, falta profundidade. Falta diversidade de perspectivas. Tudo parece funcionar bem… até que surge um novo concorrente, uma tecnologia inesperada ou uma mudança brusca no comportamento do cliente. Aí fica evidente como são frágeis os alicerces de equipes que evitam o confronto saudável de ideias.

Psicologicamente, o Groupthink se alimenta de dois mecanismos muito comuns. O primeiro é o viés de confirmação: a tendência de buscar apenas aquilo que reforça o que já acreditamos. O segundo é a pressão pela conformidade – em grupos muito coesos, discordar é visto como romper uma espécie de “pacto de paz”. O resultado é que muitas ideias criativas morrem antes de nascer, sufocadas pelo medo de parecer diferente. É como se a organização erguesse muros invisíveis, permitindo apenas versões repetidas da mesma resposta.

Esse aparente conforto cobra caro. Empresas que se fecham em torno de visões parecidas desperdiçam a chance de cruzar conhecimentos de áreas diferentes – exatamente o que caracteriza a habilidade da polimatia. A polimatia, cada vez mais valorizada, é a capacidade de transitar entre vários campos – administração, tecnologia, comunicação, finanças – e de enxergar conexões que especialistas isolados não conseguem perceber. É a habilidade de “ver o todo” e, muitas vezes, de “pensar fora da caixa”. Quando todos têm a mesma formação e trajetória, essa riqueza desaparece. O pensamento fica estreito, as soluções se repetem, e a criatividade some do radar.

Os números confirmam. Um estudo da consultoria BCG, publicado na Exame em 2019, mostrou que empresas com maior diversidade em suas equipes de liderança geram 19% mais receita de inovação em comparação às menos diversas. Já a PwC, em sua pesquisa global de 2023, revelou que apenas 11% das empresas familiares brasileiras possuem programas formais de sucessão, contra 64% no cenário mundial. Resultado? Poucas conseguem chegar de forma saudável à terceira geração.

De forma curiosa, nem mesmo as startups, que nasceram com a bandeira da inovação, escapam dessa armadilha. Muitas vezes acabam montando times de clones: gente com a mesma universidade no currículo, circulando pelos mesmos grupos e enxergando o mercado pelo mesmo ângulo. No início, essa semelhança parece um trunfo: decisões rápidas, menos atrito. Mas é só aparecer uma crise econômica ou surgir uma tecnologia disruptiva que a fragilidade se revela. Quando todo mundo olha para o mesmo lado, ninguém percebe o que vem pela lateral. E aí, a casa desmorona mais rápido do que se imagina.

Outro efeito nocivo do Groupthink é a fragilidade das decisões estratégicas. Equipes homogêneas podem decidir rápido, mas decidem mal. Faltam contrapontos, faltam perguntas incômodas. O Sebrae, em relatório de 2024, destacou que equipes plurais identificam riscos ocultos e encontram oportunidades que grupos homogêneos simplesmente não veem.

Em países como o Brasil, onde a imprevisibilidade econômica e regulatória é constante, ignorar diferentes ângulos de análise pode ser um erro fatal.

Esse é o paradoxo da homogeneidade: ela traz conforto no curto prazo, mas cria vulnerabilidades silenciosas no longo. O consenso fácil de hoje pode se transformar no erro estratégico de amanhã. A harmonia superficial protege egos, mas compromete o futuro das organizações.

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Rogério Parente
Graduado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e especializações em Visão Estratégica, Planejamento e Controle Gerencial, Governança Corporativa, entre outras. Com 35 anos de experiência nas áreas de Tecnologia e Gestão empresarial, sendo 26 anos como executivo na Hewlett Packard. Hoje, Consultor em Gestão Empresarial, Docente em MBA, Coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias (GEAPE Tech) no Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRASP) e membro da Diretoria do Instituto Paulista Excelência da Gestão (IPEG).

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