O setor madeireiro brasileiro entrou em 2026 com uma certeza incômoda: a volatilidade deixou de ser exceção e passou a ser regra. Mal começamos a respirar com a recuperação das exportações em abril e já fomos lembrados de que tarifas, câmbio, fretes e decisões tomadas do outro lado do mundo podem mudar rapidamente o planejamento das indústrias.
Abril trouxe reação, com faturamento global de US$ 171,8 milhões nos produtos acompanhados pela WoodFlow e avanço de 38% no volume exportado frente a março. A retomada veio da redução da tarifa americana e da volta do compensado e do serrado de pinus aos Estados Unidos. Mas maio já sinalizou acomodação: queda de 10% em valor e de 17% em volume frente a abril. A leitura é clara: depender de janelas tarifárias, sazonalidade ou mercado spot é uma armadilha.
A ameaça de uma nova tarifa linear de até 25% contra o Brasil, no âmbito da Seção 301 dos Estados Unidos, reforça esse ponto. Mesmo antes de qualquer medida entrar em vigor, o estrago comercial começa. O comprador americano evita contratos longos quando existe o risco de uma tarifa explodir no meio do caminho. Para produtos com margens apertadas, como serrado e compensado de pinus, o alerta é evidente.
Em uma cadeia exportadora de grandes volumes, qualquer oscilação no transporte afeta margem e previsibilidade. O custo logístico deixou de ser apenas um problema operacional e passou a ser variável estratégica. Será cada vez mais necessário planejar rotas, diversificar destinos e tratar inteligência logística como parte do modelo de negócio.
Ainda assim, o Brasil mostra força. O relatório de maio do Global Timber Index colocou o país como o único em expansão entre os mercados analisados, com 51,7%. Esse dado revela a resiliência de uma base diversa, que vai de pinus, eucalipto e teca a compensados, serrados, portas, molduras, painéis e biomassa. Poucos países têm essa amplitude. O problema é que resiliência não pode virar acomodação.
No episódio 27 do Podcast WoodFlow, Mário Souza Neto, da Arauco Brasil, e Joésio Siqueira, da STCP, trouxeram uma provocação importante. Olhamos muito para Washington, Europa, EUDR e disputas comerciais, mas parte relevante do desafio está dentro de casa. O Brasil tem crescimento florestal rápido, matriz energética limpa, áreas degradadas disponíveis e capacidade industrial. Falta transformar esse potencial em cultura florestal, política pública, investimento privado e visão de longo prazo.
O alerta sobre um possível apagão florestal nos próximos cinco ou seis anos não pode ser tratado como exagero. Sem novos plantios, pesquisa, fomento e previsibilidade para quem investe em floresta, não há como sustentar a competitividade que hoje nos diferencia. Floresta plantada é infraestrutura produtiva: base para exportação, indústria, construção, descarbonização e desenvolvimento regional.
É aqui que o setor precisa encarar uma questão com coragem: a nossa galinha dos ovos de ouro pode estar no mercado interno. Isso não significa reduzir a importância da exportação. Pelo contrário. Segundo Joésio, o mercado interno pode ter até 5 vezes o tamanho da nossa exportação e ele mais forte torna a indústria mais estável, dá escala e amplia a capacidade de competir lá fora. O Brasil ainda consome pouca madeira em aplicações nas quais poderia avançar muito mais, como construção civil, habitação, infraestrutura e substituição de materiais mais intensivos em carbono.
Grandes economias querem recuperar a indústria, empregos qualificados e valor agregado. Se o Brasil responder apenas tentando vender mais volume, continuará vulnerável ao humor tarifário, ao custo do frete e à pressão regulatória. O próximo salto exige produtos melhores, novos usos, mais tecnologia, mais industrialização e mais consumo interno de madeira.
Podemos seguir reagindo a cada tarifa, frete e mudança de regra, ou construir uma base mais sólida para ocupar outro lugar no mercado global. Isso passa por plantar mais, agregar valor, diversificar mercados e estimular o uso da madeira dentro do Brasil. A nova fronteira da madeira brasileira talvez esteja menos no próximo embarque e mais na capacidade de organizar um mercado interno forte o suficiente para sustentar nosso protagonismo no mundo.



