Guerra no Oriente Médio pressiona exportações de madeira

Conflito entre EUA e Irã eleva custos, desorganiza logística e impacta principalmente o pinus serrado brasileiro no início de 2026.

O agravamento das tensões no Oriente Médio, com o conflito entre Estados Unidos e Irã, já produz efeitos concretos sobre o comércio internacional, e o setor brasileiro de madeira sente esses impactos de forma direta. Em um ambiente de elevada incerteza geopolítica, logística pressionada e custos crescentes, as exportações passam a refletir não apenas a dinâmica de oferta e demanda, mas também os riscos associados ao cenário global.

Um dos principais pontos de atenção está no estreito de Ormuz, rota estratégica por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial. A instabilidade na região afeta o fluxo marítimo, eleva o custo dos fretes e amplia o risco operacional das exportações. Esse efeito se espalha por toda a cadeia produtiva, impactando desde insumos industriais até o transporte de mercadorias.

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Impactos nos dados e no fluxo comercial

No setor florestal, os reflexos aparecem de forma clara nos números do primeiro trimestre de 2026. Dados da STCP, com base no ComexStat, mostram retração relevante nos principais produtos da pauta exportadora, com destaque para a madeira serrada de pinus, o item mais afetado neste contexto.

Em volume, as exportações de serrado de pinus recuaram 6% na comparação com o mesmo período de 2025. Já em valor, a queda foi ainda mais expressiva, atingindo 12% . Esse movimento reflete não apenas a redução na demanda, mas também um ambiente de maior pressão sobre preços e margens.

O impacto é ainda mais evidente quando analisamos mercados específicos. O Oriente Médio, que vinha se consolidando como alternativa estratégica para exportadores brasileiros, sofreu uma forte desaceleração ao longo do trimestre. Em janeiro, as exportações brasileiras de produtos madeireiros para a região somaram cerca de US$ 17,5 milhões, mas recuaram para pouco mais de US$ 6 milhões em março, uma queda de aproximadamente 64% no período .

Nos países do Golfo Pérsico, a retração foi ainda mais intensa. Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait registraram quedas que chegaram a mais de 80% entre janeiro e março, evidenciando o efeito direto da instabilidade sobre o fluxo comercial. Trata-se de mercados relevantes para produtos como madeira serrada de pinus, móveis e compensados, que dependem de previsibilidade logística e estabilidade econômica para manter o ritmo de compras.

Desafios estruturais e caminhos estratégicos

Além da redução no volume exportado, o setor enfrenta um desafio mais estrutural: a perda de previsibilidade. A cadeia florestal trabalha com ciclos longos, que exigem planejamento de anos ou até décadas. No entanto, o atual cenário geopolítico reduz drasticamente a capacidade de projeção, dificultando decisões estratégicas e aumentando o risco das operações.

Outro fator que contribui para esse ambiente adverso é o comportamento do petróleo. A elevação dos preços internacionais impacta diretamente os custos de transporte e produção, pressionando ainda mais a competitividade das exportações brasileiras. Em um contexto de incerteza, compradores tendem a adotar uma postura mais cautelosa, priorizando itens essenciais e adiando decisões de consumo, o que afeta diretamente produtos como madeira.

Vale destacar que o setor já vinha de um período desafiador em 2025, marcado por ajustes de mercado, mudanças tarifárias e reconfiguração dos fluxos comerciais globais. Nesse cenário, o Oriente Médio havia ganhado relevância como destino alternativo, especialmente diante da retração de outros mercados. A atual crise, portanto, interrompe, ao menos temporariamente, essa estratégia de diversificação.

Apesar do cenário negativo no curto prazo, há uma leitura importante a ser feita. Crises geopolíticas tendem a gerar impactos intensos, porém temporários. A velocidade da retração observada em 2026 mostra como o mercado reage rapidamente a eventos externos, mas também indica que movimentos de recuperação podem ocorrer na mesma intensidade, dependendo da evolução do conflito.

Diante desse contexto, ganha força a necessidade de estratégias mais resilientes. A diversificação de mercados, o fortalecimento do mercado interno e o investimento em produtos de maior valor agregado aparecem como caminhos para reduzir a exposição a choques externos. Mais do que nunca, o setor precisa combinar eficiência operacional com inteligência de mercado.

O momento exige uma leitura ampliada do cenário global. Custos logísticos, câmbio, demanda e risco geopolítico passaram a atuar de forma ainda mais interdependente, tornando o ambiente de negócios mais complexo. Para as empresas brasileiras de madeira, o desafio não está apenas em reagir às mudanças, mas em antecipar tendências em um mundo cada vez mais volátil.

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Gustavo Milazzo
Gustavo Milazzo é empresário, formado em Comércio Exterior pela Universidade Tuiuti, Pós-Graduado em Negócios Internacionais pela FAE e com MBA em Gestão Exponencial da Xpeed. Possui mais de 28 anos atuando no setor de comércio exterior, dos quais 25 anos são dedicados a compra e venda de madeira no mercado externo. É fundador da GCM Trade e CEO da WoodFlow, uma plataforma que faz a integração do ecossistema da madeira, conectando compradores do mundo todo e vendedores brasileiros. Sua missão é disseminar e promover a madeira brasileira pelo muito através de informação e tecnologia.

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