Tarifaço de Donald Trump faz preços da celulose caírem nos EUA: por quê?

Impacto das tarifas norte-americanas redefine fluxo global da celulose e pressiona preços nos principais mercados

Até julho do corrente ano, a perspectiva de altas taxas alfandegárias de importações dos EUA sobre muitos países levaria, em princípio, a aumentos de preços desses produtos nos EUA e suas reduções em outros países, pois a entrada em vigência de altas alíquotas de importação diminuiria a oferta de produtos estrangeiros nos EUA e haveria seu aumento em outros países.

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Neste cenário se incluía, em princípio, as celuloses. Mas, o acordo dos EUA com a União Europeia (em determinar alíquota básica de 15% nas importações norte-americanas) e a manutenção da alíquota diferenciada de 10% sobre a celulose vinda da América do Sul (inclusive a oriunda do Brasil) fizeram com que a perspectiva seja de maior oferta dessa commodity nos EUA no segundo semestre deste ano em relação ao que antes se previa.

E isso faz com que o preço da celulose comece a cair nos EUA no segundo semestre de 2025, acompanhando as quedas de preços desta commodity na Europa e na China. Volta a haver sincronia entre os mercados internacionais na tendência (de queda) dos preços da celulose, no mínimo, da celulose de fibra longa, como se observa no Gráfico 1.

Segundo a Natural Resources Canada (NRC), o preço da tonelada de celulose de fibra longa (NBSKP) reduziu-se em US$ 45 nos EUA, em US$ 50 na Europa e em US$ 30 na China em junho frente a seus preços vigentes em maio (ver Tabela 1). Mas este produto ainda continua sendo vendido na China a 39% do valor cobrado nos EUA.

Há, portanto, condições da NBSKP ser ofertada nos EUA a preço competitivo e o fabricante estrangeiro arcar com o ônus da tarifa alfandegária norte-americana. Por exemplo, o ofertante europeu – tendo que pagar e arcar com os ônus dos 15% de alíquota de importação nos EUA – poderá faturar (e receber líquidos pela tonelada de NBSKP) o valor de US$ 1.556,52, e o comprador norte-americano pagará os 15% de alíquota de importação quando o produto adentrar nos EUA, sendo que o consumidor norte-americano pagará, ao final, os atuais US$ 1.790 (caso sejam mantidas as cotações da Tabela 1).

Esse valor de US$ 1.556,62 a ser recebido pelo exportador europeu é superior ao que se pratica na própria Europa (US$ 1.510 por tonelada de NBSKP) e muito maior do que se vendesse o produto na China (que deseja pagar US$ 695), todos esses valores referentes a junho passado.

Quando do término desta coluna, o site do Governo da British Columbia, Canadá, apresentava instabilidade de acesso e os dados sobre preços de madeiras no Canadá (ver Tabela 13) não puderam ser atualizados em relação aos apresentados na edição anterior desta coluna.

Mercados de Celulose

Apesar de junho e julho indicarem as mesmas tendências para os preços em dólar norte-americano da celulose nos principais mercados mundiais (de queda), as intensidades desses processos não são idênticas entre os países e nem entre os tipos de celulose negociadas (a de fibra longa, NBSKP, versus a de fibra curta, seja BHKP ou BEK).

Europa

Não obstante a perspectiva de maior crescimento econômico da Europa em 2025 (crescimento do PIB entre 1% e 1,2%, segundo a OCDE) frente ao alcançado em 2024 (de 0,8%) e em 2023 (de 0,5%), há menor consumo de celulose na Europa nos sete primeiros meses de 2025 do que em idêntico período do ano passado (ver Gráfico 2).

Diante desse menor consumo mensal (nos primeiros sete meses de 2025, o consumo foi 5,34% menor do que em idêntico período de 2024) e da perspectiva de maior oferta de celulose na Europa (que paga preços mais altos do que na China), os europeus não estão aumentando os volumes de estoques nos portos europeus nos primeiros sete meses de 2025 (ver Gráfico 3). Evitam-se formar estoques além dos necessários, diante da fase de queda de preços desta commodity.

Há um estreitamento da diferença entre estoques e consumos mensais de celulose na Europa (ver Gráfico 4). Em janeiro de 2024, os estoques ultrapassavam em 119% o consumo mensal de celulose na Europa. Em julho do corrente ano, esta diferença passou para 95%.

EUA

Os EUA é o país que mais demorou, na fase atual de baixa de preços da celulose, para ingressar na mesma. Para a tonelada de NBSKP (celulose de fibra longa), a queda de preços começou em junho. Mas isto ainda é em parte compensado pela manutenção e/ou pequena alta de preços de alguns tipos de papéis e de artefatos de papéis.

O índice de preços de celulose, papéis e artefatos de papéis, calculado pelo Banco Central de Saint Louis, cuja base é junho de 2006 (ver Gráfico 5), em julho de 2025 foi de 155,672, frente a 155,766 em junho (muito próximos entre si), tendo aumentado de abril a junho.

China

A China tem aproveitado a dificuldade de países produtores de commodities em exportar para os EUA, em especial o Brasil, para negociar a preços ainda menores suas importações de matérias-primas.

A celulose de fibra curta (BEK) foi negociada, segundo a Norexeco (ver Tabela 3), na China a US$ 500 por tonelada em julho e possivelmente terminará na média próxima a US$ 494 por tonelada em agosto, prevendo-se voltar a US$ 500 por tonelada em setembro.

Há, no entanto, divergências entre as fontes de dados sobre esses preços. O SunSirs Commodity Data Group (ver Tabela 5) sugere pequena alta do preço da tonelada de BEK no mercado spot chinês em começo de agosto frente ao que vigorou em começo de julho, mas ainda em agosto havendo preço menor do que em junho.

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Carlos Bacha
Professor Titular da ESALQ/USP.

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