Conceitos de intensidade energética e consumo específico de energia em setores industriais no Brasil

As políticas energéticas do Brasil estão à altura dos desafios energéticos mais urgentes do mundo. O acesso à eletricidade em todo o País é quase universal e as energias renováveis atendem a quase 45% da demanda de energia primária, tornando o setor energético brasileiro um dos menos intensivos em carbono do mundo. A demanda total por energia primária dobrou no Brasil desde 1990, impulsionada pelo forte crescimento do consumo de eletricidade e da demanda por combustíveis para transporte, impulsionada pelo robusto crescimento econômico e por uma ampliação da classe média (BEN, 2025).

Grandes usinas hidrelétricas respondem por cerca de 80% da geração doméstica de eletricidade, tornando a matriz elétrica brasileira uma das mais limpas do mundo. A expansão contínua da energia hidrelétrica é cada vez mais limitada pelo isolamento e pela sensibilidade ambiental de grande parte do recurso restante. Projetos fotovoltaicos, em escala de utilidade pública e geração distribuída, representarão quase 70% de todas as adições nos próximos anos (PDE, 2035).

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A dependência de outras fontes para geração de energia também está crescendo, notadamente gás natural, eólica (onshore e offshore) e bioenergia. Um sistema de leilões de contratos de energia, fornece um mecanismo para antecipar investimentos em nova capacidade de geração e transmissão, bem como para diversificar a matriz energética. Grandes descobertas de petróleo e gás offshore confirmaram o status do Brasil como um candidato a ser um dos principais produtores de petróleo e gás do mundo, o que poderá auxiliar a transição energética (BEN, 2025 e IEA, 2025).

Na COP26, o Brasil anunciou uma meta de longo prazo para atingir emissões líquidas zero até 2050 e um plano de redução de 50% nas emissões de carbono, juntamente com uma meta de desmatamento ilegal zero até 2030. Isso é apoiado por um plano de ação climática anunciado para 2030 e uma estratégia nacional para o hidrogênio que está sendo desenvolvida (IEA, 2025).

Neste contexto, o setor industrial brasileiro deve ser acionado a contribuir com a transição energética com a indicação da adoção do índice de eficiência energética com o objetivo de consumir menos energia e elevação da produtividade, bem como gerar mais riqueza com a diminuição da intensidade energética.

Indicadores de eficiência energética são utilizados para avaliar o progresso da eficiência energética, medir a economia de energia. Entre os mais utilizados a nível nacional/regional, destacam-se o consumo específico, intensidade energética e aqueles relacionais à penetração de tecnologias eficientes no mercado. O consumo específico relaciona o consumo de energia a um indicador de atividade medido em unidade física (tonelada produzida, m² e equipamento, por exemplo), enquanto a intensidade energética é um indicador mais agregado que relaciona o consumo de energia com um indicador de atividade medido em valor monetário (PIB ou valor adicionado).

Observe que tais indicadores são úteis para indicar tendências, mas nem sempre podem explicar essas tendências, e não necessariamente estão associados ao progresso da eficiência energética do ponto de vista técnico. Para enriquecer a interpretação e melhor monitorar as tendências de eficiência energética são necessários indicadores mais complexos, como o ODEX e a decomposição do consumo de energia em efeitos, conhecer o contexto por trás dos indicadores, e combinar indicadores. Cada indicador ou conjunto de indicadores responde a perguntas específicas, que podem vir de uma perspectiva política, econômica ou técnica.

Conforme EPE (2024), o índice de eficiência energética ODEX, tem o objetivo de monitorar o progresso da eficiência energética de forma mais precisa que a intensidade energética, buscando isolar efeitos como mudanças na estrutura econômica do País.

Adicionalmente, a sua metodologia de cálculo permite agregar tendências expressas em diferentes unidades de medida, como o consumo de energia de geladeiras, consumo por produção física de celulose, papel e aço e consumo por tonelada-quilômetro no modo ferroviário, por exemplo, e assim ser composto pelos melhores indicadores disponíveis. É agregado por setor e para a economia como um todo. O índice ODEX foi desenvolvido para o programa Odysee database da União Européia e adaptado pela EPE para a realidade brasileira.

O ODEX por setor industrial é baseado nos índices de consumo unitário por segmento (celulose e papel, cimento, cerâmica, têxtil etc.) ponderados pela participação no consumo total de energia do segmento industrial focado. O consumo unitário por segmento pode ser expresso em diferentes unidades com objetivo de fornecer a melhor “proxy” de avaliação da eficiência energética, tais como o consumo por domicílio, o consumo por produção física ou o consumo por atividade de transporte (medida em unidades como passageiro-quilômetro e tonelada-quilômetro).

No caso do ODEX global, o mesmo método é aplicado com fatores ponderados, baseados nas participações do consumo total de energia final de cada segmento em relação ao total de energia final considerado para todos os setores avaliados (EPE, 2024).

O BEN (2025) apresenta indicadores afins ao setor de celulose e papel (Tabela 1). O índice de eficiência energética (IEE) – ODEX – para setor industrial brasileiro calculado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), foi realizado no global do setor industrial e com alguns comentários sobre alguns setores específicos, onde o de celulose e papel, não teve maiores comentários. Isto é um indicativo de que o setor tenha se mantido relativamente estável ao longo de todo o período analisado.

Merece salientar que a eficiência energética está intrinsecamente relacionada a vários dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), bem como às questões de transição energética e a agenda da ONU para 2030, sendo, portanto, essencial realizar avaliações sobre a evolução dos índices de eficiência energética em todos os setores econômicos. Os setores econômicos são o primário, secundário e terciário, que agrupam as atividades produtivas. O setor primário extrai matéria-prima da natureza (agricultura, pecuária, mineração). O setor secundário transforma essa matéria-prima em produtos industrializados (indústria, construção civil). Já o setor terciário abrange o comércio e a prestação de serviços (educação, saúde, transporte).


Referências

BEN, Empresa de Pesquisa Energética, Ministério de Minas e Energia, Balanço Energético Nacional Ano Base 2024, 2025, 315 p.
EPE, Empresa de Pesquisa Energética, Atlas da Eficiência Energética Brasil, Manual Metodológico Dados e Indicadores, NOTA TÉCNICA EPE/DEA/SEE/2024/18, 2024, 26 p.
IEA, International Energy Agency, Brazil‘s Energy System, Disponível em: https://www.iea.org/countries/brazil/efficiency-demand, https://www.iea.org/countries/brazil. Acesso em: out. 2025.
PDE 2035, Empresa de Pesquisa Energética, Ministério de Minas e Energia, Plano Decenal de Energia 2035, Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/plano-decenal-de-expansao-de-energia-2035, Acesso em: out. 2025.

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Mauro Berni
Pesquisador das áreas de meio ambiente e energia do Núcleo Interdiciplinar de Planejamento Energético (NIPE), da Universidade de Campinas (Unicamp-SP)

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