Entre incertezas e estoques: o que sustenta o mercado de papel no curto prazo

Apesar de um cenário mais desafiador, o mercado brasileiro de papel e embalagens ainda deve encontrar algum ganho de demanda no curto prazo, principalmente devido a estratégias defensivas ao longo da cadeia produtiva no segundo trimestre, sustentando o consumo pontualmente e em meio a preços mais altos, reforçando o ambiente de estagflação esperado para o setor. Isso ocorre porque, diante do aumento de custos e dos riscos logísticos, compradores podem antecipar suas compras e aumentar seus estoques no curto prazo, ajudando a manter os preços no mercado.

Esse comportamento ocorre em um momento em que a demanda estava perdendo tração diante das incertezas globais, das mudanças no comportamento dos consumidores e dos altos custos de capital. O crescimento econômico mais fraco e os juros elevados já estavam reduzindo o impulso para vendas de volumes mais altos, especialmente em grades ligadas a setores exportadores diante de um câmbio menos favorável, exceto a carne bovina, que parece estar em uma corrida de curto prazo para exportar volumes à China antes que o Brasil atinja o teto da quota de importações determinada pelo país asiático.

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Ainda assim, a percepção de que novos aumentos de custos estão no horizonte tem alterado o comportamento dos end-users (consumidores finais), que já começam a antecipar as compras. Energia, combustíveis, fretes e capital mais caros elevam o risco de novas rodadas de reajustes, o que incentiva compras antecipadas e contratos de curto prazo. Esse movimento cria um suporte temporário à demanda, mesmo em um ambiente econômico menos favorável.

Do ponto de vista logístico, a combinação entre maior incerteza geopolítica e cadeias globais ainda em ajuste reforça a cautela. Para muitos compradores, o custo de carregar estoques tornou-se secundário diante do risco de desabastecimento ou de preços mais altos no futuro. Esse fator ajuda a explicar por que, no curto prazo, o mercado permanece mais resiliente do que os fundamentos da demanda sugerem.

Entretanto, entendo que esse suporte é tático, e não estrutural. Caso as tensões externas persistam, os efeitos sobre os custos e o comércio podem se estender por vários meses, sustentando preços médios mais altos ao longo do ano. Por exemplo, nossas projeções para os índices de preços Fastmarkets de kraftliner 120-150g no Brasil passaram para R$ 5.483 por tonelada na média do ano ante 2025, alta de 8,1% frente à projeção antiga de R$ 4.926 por tonelada. Já para o testliner 120-130g, nossa expectativa para a média do ano passou de R$ 3.560 por tonelada para R$ 4.293 por tonelada, aumento anual de 8,6%, segundo a última edição do nosso relatório mensal Latin America Paper Products Monitor.

Ainda assim, a visibilidade dos volumes permanece limitada, especialmente em segmentos mais sensíveis à renda e ao crédito, como o de papel cartão ou papéis gráficos. Nossa projeção para o papel cartão tipo duplex reciclado 195-375g no mercado interno passou de R$ 5.360 por tonelada na média do ano para R$ 5.638 por tonelada, enquanto para o duplex virgem a expectativa subiu de R$ 6.800 por tonelada para R$ 7.414 por tonelada.

Nesse ambiente, o principal desafio para o setor é diferenciar movimentos pontuais de mudanças duradouras. Com sinais mistos entre o curto e o médio prazos, a capacidade de interpretar dados, tendências e riscos torna-se decisiva.

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Rafael Barisauskas
Rafael Barisauskas ingressou na Fastmarkets em 2019 como economista para a América Latina, analisando os mercados regionais de celulose, papel e embalagens, além da cobertura econômica para a região. Rafael trabalha com projeções econômicas desde 2013, acumulando um vasto conhecimento em comércio de commodities e organização industrial. Além disso, Rafael também atua como professor universitário de economia na FECAP (Brasil). Ele é mestre em Economia pela universidade KU Leuven, na Bélgica, focando sua pesquisa em análise das cadeias globais de valor na indústria de papel e celulose. Rafael Barisauskas joined Fastmarkets in 2019 as the Latin America economist, analyzing the regional pulp, paper, and packaging markets as well as the local economies. Having worked on economic forecasts since 2013, Rafael has a deep understanding of the global commodities trade and industrial organization. Rafael also works as an Economics Professor at FECAP University (Brazil), and he has a Master's degree in Economics from KU Leuven in Belgium, focusing his research on global value chain analysis in the pulp and paper industry.

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