POR FILIPE BRUMATTI DE SOUZA* – A coluna Anguti faz uma transição nesta edição da Revista O Papel para passar a se chamar coluna MAPA.SA a partir da próxima edição. Os leitores que acompanham esta publicação puderam acompanhar a despedida do colunista Pedro Vilas Boas e minha apresentação em página especial publicada na coluna Anguti da edição de junho 2025 desta revista. Ou, se não tiveram a oportunidade de fazê-lo, podem acessá-la em opapeldigital.org.br, na O Papel do mês passado.
LEIA AQUI O PDF DA COLUNA DE JULHO DA REVISTA O PAPEL COM OS GRÁFICOS E TABELAS
Ao sermos convidados a assumir este espaço, a palavra que melhor define a sensação dos envolvidos, profissionais da minha equipe na MAPA.SA (veja box sobre a empresa), sem dúvida, é ineditismo.
Em seguida, veio a grande pergunta: “Como contribuir com os milhares de leitores da Revista O Papel?”, e ela perdurou até redigirmos este primeiro texto.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre a nossa própria história, que se iniciou em 2008 a partir da minha atuação como um “agente de campo” no Paraná.
Como consultor, tive a oportunidade de mapear os principais atores da reciclagem como as organizações de catadores, os programas de coleta seletiva, os comércios de reciclagem e os mais diversos recicladores, em especial os de papelão e de embalagem longa vida.
Quando olho todo esse caminho percorrido, percebo que esse privilégio provém do trabalho desenvolvido ao longo de todos esses anos ao termos ampliado nosso horizonte de atuação para as 27 unidades federativas, países da América Latina, África e Ásia, garantindo uma bagagem de experiências que traremos mensalmente aos nossos leitores.
Sempre acompanhado de minha companheira Vanessa Alves de Souza e aliado a dezenas de profissionais distribuídos pelo País, que há décadas nos acompanham em um crescimento mútuo, e impulsionados por uma equipe interna com as mais diversas formações – como humanas, biológicas e exatas –, acumulamos responsabilidades ao longo dos anos que vêm desde a construção do Acordo Setorial de Embalagens e da Coalizão Embalagens, que se iniciou tecnicamente em 2012, passando pelo quadro de seu comitê técnico e agora como responsável técnico do Instituto ABIA de Meio Ambiente, entidade gestora de logística reversa de embalagens em geral da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos.
Sempre visando ao fortalecimento de uma rede de relacionamentos, conectamo-nos com mais de 2 mil organizações de catadores, milhares de comércios atacadistas de materiais recicláveis, além do acompanhamento frequente da indústria da reciclagem de papel, podemos afirmar com toda certeza que esse setor atua como o “carro-chefe”, devido à sua representatividade quantitativa, territorial e econômica.
Assim, com a produção dos informativos da ANGUTI Estatística, esperamos ser referência nacional em dados do setor de papel e levar informações relevantes aos leitores da O Papel.
Temos a visão e missão de gerar valor por meio de conhecimento compartilhado. Nossa expertise também permite identificar e conectar a indústria com esses atores, auxiliando no desenvolvimento da cadeia de coleta e reciclagem.
Atualmente, desenvolvemos projetos para auxiliar no escoamento, reciclagem e conexão de recicladores para a embalagem longa vida e realizamos homologação de organização de catadores para que seja possível fazer a separação de embalagens plásticas flexíveis, auxiliando não só com critérios operacionais como também necessidades de qualidade e armazenagem da indústria de plásticos, sempre tendo como ferramenta indispensável nossa grande aliada: a tecnologia da informação.
Possuímos projetos que transformam a base da cadeia, melhoram a operação das organizações de catadores e auxiliam a indústria em suas necessidades com a cadeia de reciclagem.
Destacamos um dos nossos maiores projetos, realizado em parceria com a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), por meio do qual capacitamos, em 12 meses, 18 cooperativas do Distrito Federal, Goiás e Pará em produtividade, gestão e liderança, promovendo o desenvolvimento social e organizacional desses grupos.
Gestão de conhecimento como a principal ferramenta de comunicação
Ao verificarmos que dentro da indústria da reciclagem a mobilidade e a troca de saberes são nossos maiores ativos, passamos a entender que tínhamos como principal atividade e responsabilidade a gestão do conhecimento para que assim pudéssemos amparar nossos clientes em suas maiores dores.
Com isso, desde 2012 mantemos em nosso rol de atividades a gestão de dados, informações e, desde 2018, o desenvolvimento de sistemas computacionais como um dos pilares da empresa, sempre voltado a garantir a governança, auditabilidade e rastreabilidade nos produtos e serviços que fornecemos.
Contribuímos de forma decisiva para a gestão da informação no mercado de papel ao integrar tecnologia, inteligência de campo e análise estatística em toda a cadeia da logística reversa.
Isso inclui informações sobre volumes recuperados, tipos de papel reciclado, rotas de coleta, documentação fiscal e indicadores de desempenho. Esses dados são validados tecnicamente e organizados em painéis e mapas interativos que permitem às indústrias planejarem, comprovarem metas ambientais e tomarem decisões estratégicas com segurança e rastreabilidade.
O diferencial da MAPA.SA não está apenas nos dados, mas em como esses dados são apresentados.
E com a recente incorporação dos informativos da ANGUTI Estatística, fortalecemos ainda mais nossa atuação como provedora de inteligência de mercado.
Agora, além dos dados operacionais, a empresa também oferece análises sobre preço, sazonalidade e comportamento regional da cadeia de recicláveis, especialmente papel.
Isso permite que toda a indústria tenha uma visão completa desde o chão da triagem até a estratégia corporativa com informações confiáveis, atualizadas e aplicáveis tanto à gestão quanto à comunicação ESG.
Com isso, oferecemos não apenas execução operacional, mas também inteligência de mercado aplicada, sempre com o objetivo de cuidar e desenvolver, um diferencial inédito no Brasil.
E por meio desta coluna vamos trazer um conteúdo que, com base na nossa experiência, tratará sobre as demandas do setor papeleiro, seja no ponto de vista da sociedade, dos marcos legais ou do meio ambiente.
Com o relacionamento estabelecido e a responsabilidade assumida ao longo dos anos, vamos oferecer à Indústria da Reciclagem do Papel, neste espaço, informações que possam subsidiar na tomada de decisão por parte dos atores desse ecossistema, sempre com transparência e embasados em informações confiáveis para nortear o mercado.
De maneira geral, a MAPA.SA se coloca nessa primeira coluna Reciclagem: Demanda, Indústria e Mercado como um novo parceiro de negócios para a indústria papeleira.
INDICADORES DO SETOR DE APARAS: prevalecem as incertezas no mercado de papel
Assim como no mês anterior, a estabilização nos valores das aparas de todos os tipos vem se confirmando.
Os indicadores da economia continuam refletindo números positivos, desde o aumento na previsão do PIB pela Fazenda até o desemprego, visto que a sua taxa se apresenta como a menor da série histórica para este período do ano, em 6,5%.
No entanto, as incertezas da economia continuam girando em torno das guerras tarifárias, no âmbito interno com a indecisão com relação ao IOF, mas ainda maior no mercado externo com a chegada do novo tarifaço estadunidense em 50% aos produtos brasileiros a partir de primeiro de agosto.
Até o momento, as imposições tarifárias do governo Trump, desde o início do seu mandato, vêm se confirmando como um bom sinal para a indústria papeleira nacional e, dos principais mercados nacionais que serão afetados pela nova tarifa, poucos possuem o papel como principal componente de suas embalagens de embarque.
O dólar vem se apresentando nos patamares de junho de 2025, e as exportações ainda demonstram bastante força, em especial do Kraftliner.
Hoje, os especialistas divergem quanto à direção que o dólar terá a partir do anúncio da nova tarifa dos Estados Unidos; neste momento ele se apresenta estável com relação ao mês anterior.
A indústria nacional demonstrou números mais favoráveis em maio, que registraram uma alta de 3,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior e, no caso dos bens de consumo, que é indicativo para o desempenho das embalagens, uma leve queda de 0,5% no período considerado, mesmo índice medido da Indústria Geral no comparativo com o mês anterior.
Nos demais comparativos: mês contra mês anterior, acumulado no ano até abril e nos últimos 12 meses até abril, o desempenho da indústria continua positivo.
A indústria ainda mostra os sinais da incerteza econômica nacional, enquanto isso, o comércio não demonstra esta tendência.
O volume de vendas, na média dos dez setores acompanhados pelo IBGE, registrou mais uma vez crescimento, agora em torno de 2,1% no comparativo interanual dos meses de maio, sendo que três setores ficaram no campo negativo, mas beirando a estabilidade.
Os hipermercados e supermercados, que impactam a geração de aparas marrons, registrou aumento de 1,6% e quando analisada a fatia de alimentos, bebidas e fumo, este aumento foi de 1,2%.
Até mesmo o setor de livros, jornais e papelaria e revistas apresentou alta de 2,5%, revertendo o período de quedas consecutivas que vinha sendo observado.
Ainda segundo o IBGE, no acumulado do ano, o volume de vendas no comércio por estados está 2,2% acima do verificado em igual período de 2024, agora com apenas três estados no campo negativo, sendo Mato Grosso do Sul próximo à estabilidade com variação de -0,2%; Rio de Janeiro, que é um dos grandes geradores de aparas, segue demostrando queda, como observado nos meses anteriores, agora em torno de 2,2%. e também Roraima com queda de 3,0%.
Os demais estados que se destacam na geração de aparas como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, demonstram resultados positivos para o período nos montantes de 1,8%, 1,9% e 5,6%, respectivamente.
Com a estabilização nos valores das aparas, os preços praticados para as aparas marrons, ondulado tipo I e II foram comercializados respectivamente por R$ 1.388,63 e R$ 1.292,45 a tonelada fob depósito com variação em relação a maio negativa em 0,1% para o ondulado I e positiva de 0,5% no ondulado II e, com esse resultado, o 1º semestre do ano acumulou um aumento de 19,7% e de 23,9%.
Já a apara branca vem sendo impactada também pelo mercado internacional da celulose que está perdendo valor, o que pode complicar ainda mais o seu desempenho no mercado interno, mantendo a pressão sobre a branca de 1ª que, em junho, foi comercializada por R$ 2.741,25 a tonelada fob depósito, 0,5% abaixo do valor verificado no mês anterior.
Já a branca II e, principalmente a branca III, que vinha sendo adicionada nas aparas marrons e registrando aumentos, tendem a perder força nos próximos meses. Em junho foram comercializas por R$ 1.442,42 e R$ 1.091,67 fob depósito, respectivamente, com variação de -0,5% e +6,0% em relação a maio.
A expedição de caixas e chapas, divulgado pela Empapel foi de 359,7 mil toneladas em maio, com um crescimento de 1,4% em relação ao mês de abril, configurando um recorde para o mês, mas, quando consideramos o desempenho por dia útil, o resultado passa a indicar uma queda de 2,5%, pois este ano o mês teve um dia útil a mais que em maio de 2024.
O segundo e o terceiro trimestres do ano são os de maior demanda por embalagens de papel, mas, o desempenho da nossa economia está indefinido, com o governo buscando aumentar o consumo da população ao mesmo tempo que o Banco Central eleva juros para reduzir a atividade econômica e controlar a inflação, o que deixa a perspectiva para as caixas de papelão imprevisível.
Nas exportações, o destaque fica para o Kraft liner que fechou o mês de junho com 41.928 toneladas exportadas, 16% abaixo do mês anterior, mas quando observado no acumulado do ano este valor teve alta de 13% e de 20%, se comparado a junho do ano anterior.
Outro destaque são os volumes embarcados que se apresentam praticamente acima das 40 mil toneladas pelo quarto mês consecutivo, o que não era observado desde maio de 2022.
Também foi relatado pelos fabricantes de miolo uma melhora significativa no preço do produto em junho, sendo negociado em média por R$ 4.886,00 a tonelada com impostos, um reajuste de 1,9% com relação ao mês anterior e de 7,19% no acumulado do ano.
■ Nota especial de agradecimento: Esta primeira coluna é uma homenagem a Vanessa Alves de Souza, a quem devemos nossa gratidão pela sua incansável dedicação como amiga, companheira, mãe e empresária para que pudéssemos chegar até aqui.
A MAPA.SA é uma empresa de consultoria em projetos socioambientais, especialmente
na reciclagem de embalagens pós-consumo, com profissionais que há mais de 17 anos
atuam na gestão de projetos, consultoria corporativa e desenvolvimento de sistemas. O Boletim
Mensal da Anguti passou a ser administrado pela MAPA.SA desde janeiro de 2025.
Mais informações: www.mapa.sa.com



