Resiliência empresarial: por que algumas empresas atravessam crises e outras ficam pelo caminho?

Caro leitor, nos últimos meses, nesta coluna, tenho convidado você a refletir sobre diferentes dimensões da competitividade empresarial. Falamos sobre a turbulência global, sobre o custo crescente de competir no Brasil, sobre a necessidade de velocidade estratégica, sobre a importância da diversidade de pensamento nas equipes e até sobre a armadilha dos indicadores que mais decoram relatórios do que orientam decisões.

À primeira vista, cada um desses temas parece tratar de um aspecto específico da gestão. Mas, quando colocados lado a lado, revelam algo maior: todos convergem para a mesma questão central – a capacidade das organizações de resistir, aprender e se adaptar em um mundo no qual a instabilidade passou a ser regra. Em outras palavras, estamos falando de resiliência empresarial.

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Esse tema deixou de ser apenas um conceito elegante da literatura de gestão. Tornou-se uma competência essencial de sobrevivência – e, em muitos casos, de permanência competitiva. Basta observar o cenário ao redor.

Nos últimos anos, as empresas têm enfrentado uma sequência de choques que dificilmente caberia em qualquer planejamento tradicional: pandemias globais, guerras regionais com impacto sobre cadeias de suprimento, rupturas tecnológicas aceleradas pela inteligência artificial, inflação persistente em diversas economias e um ambiente geopolítico que parece cada vez mais fragmentado.

Segundo o World Economic Forum, mais de 60% das empresas globais afirmam que a instabilidade geopolítica e econômica já impacta diretamente suas decisões estratégicas. Ao mesmo tempo, a transformação digital continua redesenhando setores inteiros em uma velocidade que poucos imaginavam possível há apenas uma década. O resultado é um ambiente de negócios que já não conhece repouso: opera em permanente estado de transição.

Se, no passado, as empresas podiam planejar ciclos estratégicos relativamente estáveis, cinco ou dez anos à frente, hoje muitas delas precisam revisar prioridades a cada trimestre. Tecnologias que ontem eram diferenciais competitivos tornam-se rapidamente padrões de mercado. Novos concorrentes surgem de setores inesperados. E consumidores cada vez mais conectados mudam suas expectativas em ritmo acelerado.

No Brasil, essa instabilidade ganha camadas adicionais. Nossa economia convive simultaneamente com juros elevados, volatilidade política, complexidade tributária, gargalos logísticos e a recorrente escalada de escândalos de corrupção, que não atingem apenas governos ou instituições isoladas, mas contaminam a confiança, pressionam o ambiente de negócios e impactam todo o ecossistema financeiro e econômico do país. Planejar, nesse contexto, exige muito mais do que análise financeira. Exige capacidade de adaptação contínua.

A realidade empresarial brasileira tornou-se uma espécie de laboratório permanente de gestão sob pressão. Não por acaso, muitas organizações vivem hoje em um estado de tensão silenciosa. Processos são ajustados constantemente. Estruturas são redesenhadas. Estratégias são revistas antes mesmo de ganhar consistência plena.

Mas aqui surge um ponto importante: nem todas as empresas reagem da mesma forma a esse ambiente turbulento.

Algumas reagem de forma quase instintiva, entrando em modo defensivo. Cortam investimentos, reduzem riscos ao mínimo e passam a atuar apenas para atravessar a tempestade, na esperança de tempos melhores. À primeira vista, parecem prudentes. Na prática, muitas apenas trocam direção por retração – e chamam isso de cautela. Entretanto, quando encolhem demais, perdem não só velocidade, mas critério, energia e, aos poucos, a própria capacidade de futuro.

Outras fazem algo diferente. Mesmo diante da incerteza, continuam aprendendo, ajustando processos, investindo em tecnologia, desenvolvendo pessoas e testando novos caminhos. Posso trazer como exemplo a WEG e a Suzano.

Cito a WEG porque ela combina, de forma rara, crescimento consistente, inovação contínua, disciplina de gestão e capacidade de adaptação sem perder coerência estratégica; em 2024, a companhia reportou receita operacional líquida de R$ 38 bilhões, retorno sobre o capital investido acima de 34% e 73% da receita oriunda de produtos sustentáveis, além de avanços concretos em sua agenda ESG.

Cito também a Suzano porque, mesmo em um ambiente global desafiador para a celulose, manteve foco em eficiência, controle de custos, geração de caixa e competitividade estrutural; em 2025, registrou receita líquida recorde de R$ 50 bilhões, redução relevante no custo caixa e geração de caixa operacional de R$ 13,9 bilhões, sustentando resultados mesmo sob pressão de mercado.

Essas organizações parecem possuir uma espécie de elasticidade estratégica: absorvem impactos, reorganizam recursos e seguem em movimento. Não negam a pressão do ambiente, mas tampouco se deixam paralisar por ela. Essas são as chamadas empresas resilientes.

Resiliência, nesse contexto, não significa apenas resistir à crise. Significa preservar direção enquanto a organização se transforma dentro dela. Empresas resilientes não apenas suportam turbulências – aprendem com elas. Usam momentos de instabilidade para revisar modelos de negócio, acelerar a inovação e fortalecer suas estruturas de decisão.

Curiosamente, quando observamos essas organizações mais de perto, percebemos que sua capacidade de adaptação raramente nasce no meio da crise. Ela é construída muito antes.

Resiliência organizacional é resultado de escolhas acumuladas ao longo do tempo: qualidade da liderança, maturidade dos processos de gestão, capacidade de aprender com dados, diversidade de pensamento nas equipes e abertura à inovação contínua.

Quando a pressão externa se intensifica, e cedo ou tarde ela sempre se intensifica, essas organizações já possuem as bases necessárias para reagir com rapidez, critério e inteligência. Outras, infelizmente, descobrem suas fragilidades apenas quando a crise já está instalada, quando o caixa já apertou, quando a operação já se desorganizou ou quando a liderança já perdeu margem de manobra.

É por isso que a pergunta central deste artigo não é apenas como sobreviver a períodos difíceis. A pergunta mais importante é outra: como construir uma organização capaz de atravessar crises sem perder direção — e, muitas vezes, sair delas ainda mais forte?

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Rogério Parente
Graduado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e especializações em Visão Estratégica, Planejamento e Controle Gerencial, Governança Corporativa, entre outras. Com 35 anos de experiência nas áreas de Tecnologia e Gestão empresarial, sendo 26 anos como executivo na Hewlett Packard. Hoje, Consultor em Gestão Empresarial, Docente em MBA, Coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias (GEAPE Tech) no Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRASP) e membro da Diretoria do Instituto Paulista Excelência da Gestão (IPEG).

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