A indústria de árvores para restauração

Ana Paula Batista Kanoppa, coordenadora de Políticas Florestais e Bioeconomia da IBÁ, fala sobre o avanço da restauração ecológica e seu impacto no setor florestal

Em 2024, a IBÁ foi procurada por uma nascente indústria no País, a de restauração e de silvicultura de nativas. Não à toa, essas empresas buscavam somar forças a um setor que já possui notável trajetória de preservação, assim como de manejo florestal sustentável, modelo para o mundo quando se pensa em cultivo com responsabilidade ambiental.

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O momento é oportuno. Existe hoje um crescente interesse da sociedade em valorizar produtos nativos e nacionais provenientes de uma produção sustentável. Ao mesmo tempo, as economias do mundo se comprometem, entre avanços e retrocessos, com metas para reduzir emissões de carbono.

Para atender a essa demanda, o Brasil apresenta vantagens comparativas. O setor agropecuário brasileiro é moderno e tecnificado, considerado um dos mais eficientes do mundo. Atualmente, o País possui mais de 115 milhões de hectares de pastagens com algum nível de degradação que poderiam trazer benefícios econômicos, sociais e ambientais se forem restauradas por florestas de espécies nativas (Atlas da Pastagens – LAPIG, 2023). Hoje, as plantações de árvores existentes no Brasil, principalmente eucalipto e pinus, ocupam uma área menor que 2% do território brasileiro. Ou seja, há um enorme potencial para expansão sustentável.

A Society for Ecological Restoration define restauração ecológica como o processo de auxiliar na recuperação de um ecossistema que foi degradado, danificado ou destruído. A restauração pode ser promovida por meio do cultivo direto de mudas ou sementes nativas e pela regeneração natural (assistida ou espontânea).

Nesse cenário, surgem as empresas dedicadas a essa atividade, criando modelos inovadores que geram bons resultados para economia, sociedade e meio ambiente. Entre as novas associadas da IBÁ estão a Biomas, a Symbiosis e a re.green, cujos objetivos se voltam ao restauro de milhões de hectares em diferentes biomas brasileiros, trabalho viabilizado a partir de modelos de negócio que incluem a comercialização de produtos florestais e de créditos de carbono. Essas empresas já chamam a atenção de grandes investidores e fundos globais, que apostam no potencial para o planeta e também para seus negócios.

Na frente da comercialização de produtos madeireiros a partir da silvicultura de nativas, vemos ganhar espaço a abordagem das florestas multifuncionais, que consiste no cultivo de espécies nativas, conjugadas ou não com espécies exóticas, com técnicas de restauração para conciliar a produção de produtos madeireiros e não madeireiros com a conservação da biodiversidade e manutenção de processos ecológicos.

Já na frente do mercado de carbono, tivemos no ano passado a aprovação da legislação brasileira que regulamentará a compra e venda de créditos. Para o setor de restauração, a principal forma de obtenção de créditos de carbono é com o aumento de remoções e estoques de carbono a partir do plantio de árvores que, à medida que crescem, absorvem o CO₂, transformando o carbono em biomassa. O crédito de carbono é a moeda comercializada nos mercados de carbono, podendo ser negociada entre empresas e governos para reduzir e compensar a emissão de gases de efeito estufa.

A restauração é alternativa para uma economia de baixo carbono. E o Brasil pode contribuir significativamente para mitigar o impacto das mudanças climáticas em escala global. O Brasil pretende reduzir suas emissões líquidas de gases de efeito estufa em até 67% até 2035, tomando como referência os níveis de 2005. Ademais, o País reforçou em sua NDC (compromissos assumidos no Acordo de Paris em 2015) a meta do Planaveg (Plano Nacional de Vegetação Nativa) de restaurar 12 milhões de hectares de terra.

Para atingir esse objetivo, o País precisará investir R$ 228 bilhões, segundo estimativa do Instituto Escolhas. Mas esse investimento pode ter como retorno a geração de R$ 776,5 bilhões em receita líquida, a criação de 5,2 milhões de novos empregos, a produção de 1 bilhão de m³ de madeira para comercialização, a produção de 156 milhões de toneladas de alimentos e a remoção de 4,3 bilhões de toneladas de CO₂ da atmosfera, ainda segundo a entidade.

Seja qual for o modelo de negócios, a restauração e o reflorestamento geram benefícios múltiplos, atendendo à demanda por produtos florestais e criando empregos, ao mesmo tempo que contribuem para a conservação da biodiversidade, aumento da disponibilidade hídrica, melhoria da qualidade do solo e regulação do clima. Trata-se de um objetivo estratégico para o Brasil não só em âmbito climático, mas também para enfrentar outros grandes desafios deste século, como a perda de biodiversidade e a segurança alimentar.

O setor que planta 1,8 milhão de árvores por dia e acumulou, ao longo das últimas décadas, pesquisas e muita experiência, serve como fonte de inspiração para escalar também o esforço de restauração de nativas. A IBÁ recebe as novas empresas com grandes expectativas de que a troca de conhecimentos nessa frente abrirá novos caminhos para a construção do futuro sustentável.

Por ANA PAULA BATISTA KANOPPA – Coordenadora de Políticas Florestais e Bioeconomia da IBÁ para a Revista O Papel – texto publicado na edição de fevereiro/2025

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