Na Forest Products Latin America Conference 2025, Rafael Barišauskas, economista sênior
da Fastmarkets para a América Latina e professor de cadeias globais de valor da FECAP,
destacou tendências globais, impactos regionais, riscos e oportunidades para embalagens
de papel e demais variedades
Nesta edição especial da Forest Products Latin America Conference, realizada anualmente pela Fastmarkets e já em sua 20.ª edição, Rafael Barišauskas, concedeu entrevistas sobre os temas apresentados por ele durante o encontro. Com uma visão estratégica e fundamentada, Barišauskas integrou dois painéis de destaque: Navegando em Incertezas: Perspectivas Econômicas da América Latina (Navigating Uncertainties: Latin American Economic Outlook) e Produtos de Papel na América Latina (Latin America Paper Products).
No primeiro painel, o economista abordou o panorama econômico global, destacando tendências que moldam a economia em escala internacional, o papel da América Latina nesse contexto, os principais vetores que influenciam oferta, demanda e formação de preços, além dos impactos econômicos e implicações para a indústria decorrentes de guerras comerciais e tarifas.
Já no segundo painel, apresentou um diagnóstico sobre o mercado de papel na região, analisando as tendências de oferta e demanda para os próximos dois anos, identificando riscos e oportunidades para o segmento de embalagens de papel e traçando um panorama atualizado para o mercado de papéis gráficos.
A cobertura em vídeo do evento está disponível no canal oficial do Newspulpaper no YouTube, enquanto a matéria completa sobre essa edição do evento poderá ser conferida na edição de outubro.
LEIA AQUI A ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE AGOSTO DA REVISTA O PAPEL
A seguir, alguns apontamentos sobre os dois temas:
O Papel – A pressão econômica que tanto Rússia quanto China sofreram dos Estados Unidos levou elas a terem seu próprio centro de comércio. É uma tendência que ocorra isso no Brasil? Estamos preparados?
Rafael Barišauskas – É uma tendência em movimento para o Brasil, sim. Naturalmente, China e Rússia desenvolveram muita tecnologia nos últimos anos, especialmente no meio de pagamento e na economia financeira, que permitiram a eles, aos poucos, remover ou reduzir sua dependência de transações com dólar ou passando por empresas norte-americanas ou pelo sistema SWIFT. Hoje, o Brasil ainda é bastante dependente desse tipo de situação, mas temos investido em tecnologias alternativas como o PIX e até mesmo o sistema de pagamento da China e da Rússia para viabilizar esse comércio internacional.
O Papel – E o que falta para que a gente chegue lá?
Barišauskas – A questão tecnológica e de conhecimento é pivotal nessa situação. O único jeito de não depender de uma empresa ou país estrangeiro é desenvolver essa tecnologia internamente. No sistema financeiro, o Brasil caminha a passos rápidos para conseguir isso. O PIX, por exemplo, já é uma tecnologia revolucionária do ponto de vista global e surge como alternativa aos meios de pagamento, inclusive ameaçando empresas norte-americanas com grande participação no mercado brasileiro. Estamos no caminho, mas ainda não chegamos lá.
O Papel – Qual é a importância do Brasil, especificamente no cenário América Latina, em relação às oportunidades que devem surgir?
Barišauskas – O Brasil tem muita relevância no mercado latino-americano. Representa mais da metade do PIB da América do Sul e tem uma das maiores populações da região. Em termos de recursos, temos vantagens incomparáveis com nossos vizinhos. O mercado interno brasileiro é muito grande e, como nação de comércio externo, também é relevante. Conseguimos gravitar entre BRICS, Mercosul e atrair parceiros comerciais independentemente do alinhamento político.
O Papel – Isso pode prejudicar a relação do Brasil com o Mercosul, já que o maior parceiro comercial é a China, enquanto outros países da América Latina se alinham mais aos Estados Unidos?
Barišauskas – Acho difícil. Certos governos podem ter alinhamentos distintos, mas, de forma geral, o comércio entre países da América do Sul é relevante. Cada país possui também centros de gravidade únicos, que variam de setor para setor, então é difícil generalizar. O comércio intrarregional já foi mais importante do que é hoje, mas, ainda assim, seria disruptivo interrompê-lo. Nos médio e longo prazos, se os alinhamentos não forem convergentes, isso pode enfraquecer um pouco o bloco.
O Papel – Como o cenário econômico projetado para 2025-2027 deve impactar o mercado de papel-cartão e de corrugados na América Latina?
Barišauskas – No caso do papel-cartão, o consumo na região deve permanecer praticamente estagnado até o fim de 2026, com recuperação modesta em 2027, ainda sem voltar aos volumes observados durante a pandemia. Essa estagnação reflete, principalmente, a queda projetada para América Central e México, resultado de turbulências econômicas e maior penetração de importações chinesas. Já o mercado de corrugados apresenta um perfil mais resiliente, com crescimento ligeiramente positivo em 2025 e expectativa de novos recordes de demanda em 2026-2027, sustentado pelo desempenho da América do Sul, especialmente Brasil, e pelo vínculo estreito com cadeias de exportação de alimentos.
O Papel – Qual é o impacto das importações chinesas no mercado de papel e embalagens da América Latina, especialmente em papel-cartão?
Barišauskas – A crescente penetração de papel-cartão chinês tem pressionado as taxas operacionais das fábricas na América Latina, em especial no México e na América Central, mas também já começa a ser observada na América do Sul. Esse movimento tem provocado uma queda na participação de mercado dos produtores locais e aumentado a competição em preço, tornando o papel-cartão ainda mais vulnerável às oscilações econômicas. Em contrapartida, o México adotou tarifas sobre importações chinesas, não apenas para proteger a indústria doméstica, mas também para evitar que produtos embalados com boxboard chinês sejam exportados para os Estados Unidos, o que poderia reduzir as vendas de produtores norte-americanos.



