A nova fronteira estratégica da economia verde

Por ANA KANOPPA - Coordenadora de Políticas Florestais e Sustentabilidade da IBÁ

O Brasil vive uma oportunidade histórica de liderar a economia verde global ao transformar a restauração ecológica e a silvicultura de espécies nativas em um novo polo de investimentos de longo prazo. Nos últimos anos, diferentes modelos produtivos emergiram no País, tornando-se tecnicamente robustos, com capacidade operacional em escala e aptos a gerar impactos socioeconômicos expressivos.

LEIA O PDF DA COLUNA AQUI

Notícia continua após o anúncio

O potencial é inequívoco: publicação da McKinsey indica que o Brasil pode movimentar até US$ 26 bilhões por ano com restauração, gerando 880 mil empregos, mais da metade deles nos próprios territórios onde os projetos acontecem. Outro artigo, publicado pelo WRI Brasil (2024), mostra que o mercado global de madeira tropical movimentou US$ 992 bilhões em 2024 e cerca de US$ 1 trilhão em 2025, crescendo a uma taxa anual composta (CAGR) de 4,7% até 2030. A produção mundial soma 2,7 bilhões m³/ano, e tende a aumentar com a transição para uma economia de baixo carbono. No Brasil, apenas o potencial de 1,5 milhão de hectares de silvicultura de nativas já representa uma oportunidade relevante para atender a essa demanda.

O tema tem sido acompanhado de perto pelo GT de Restauração de Nativas da IBÁ, que reúne representantes das empresas de restauração e silvicultura de nativas associadas à entidade: Biomas, Carbon2Nature, Mombak, re.green e Symbiosis. O grupo vem debatendo os principais entraves para o desenvolvimento desse setor no País, além de levantar soluções para a superação desses desafios.

Estamos falando de um mercado privado nascente, com dinâmica própria e governança consolidada, mas que demanda investimentos robustos e de longo prazo.

O Brasil já dispõe de metodologias consolidadas, cadeias de sementes e mudas em expansão, sistemas de monitoramento sofisticados e crescente qualificação de mão de obra. O principal gargalo, portanto, não é técnico: é financeiro.

Sem instrumentos compatíveis com o risco e a maturação dos projetos, esse segmento permanece limitado a poucos investidores, apesar da urgência climática e do enorme potencial brasileiro.

Para destravar essa fronteira, é essencial não apenas ambição técnica e política, mas também avançar em soluções financeiras feitas sob medida. Podemos citar como exemplo a estruturação de fundos garantidores, a criação de linhas de crédito especificas adaptadas aos retornos de longo prazo, seguros paramétricos e mecanismos de blended finance.

Segurança jurídica, previsibilidade e incentivos fiscais para estimular o setor

Outra importante frente para o avanço do setor é o acesso a mercados internacionais de carbono, o que passa pelo devido reconhecimento das remoções florestais nesses mercados. Passa também pela participação imediata e efetiva do Brasil no âmbito do Artigo 6 do Acordo de Paris, e por outras formas de cooperações internacionais, caso do Corsia (esquema de compensação e redução de carbono setorial para a aviação internacional, na sigla em inglês).

Para além do financiamento, é necessário o aprimoramento regulatório e fiscal a partir da isonomia tributária para esse setor que pode ser considerado estratégico, além de destravar oacesso a terras e fortalecer cadeias de suprimento. Para a silvicultura de nativas, especificamente, um fator-chave para escala é ampliar a demanda, incentivando, por exemplo, o uso de madeira plantada e certificada na construção civil, especialmente em programas de habitação popular, levando os benefícios da economia de baixo carbono a toda a sociedade.

Retornos reputacionais e sociais

Os efeitos territoriais locais dessa agenda são igualmente transformadores. A restauração em escala cria um ecossistema de negócios que vai muito além do plantio de mudas e sementes: fortalece viveiros regionais, forma profissionais nos territórios, impulsiona cadeias de sementes, melhora a segurança alimentar com produtos não madeireiros e abre novas oportunidades para comunidades tradicionais, jovens e mulheres. Cada hectare restaurado representa também inovação, qualificação e novas alternativas econômicas.

Um futuro florestal

A COP30, realizada em novembro do ano passado em Belém, foi cunhada de a “COP da ação” por focar na implementação prática de compromissos climáticos. A restauração florestal e a silvicultura de nativas tornaram-se eixos centrais dessa agenda para converter metas ambientais em resultados econômicos e ecológicos. Nesse sentido, o lançamento de um grande mutirão abriu uma janela estratégica para posicionar a restauração florestal privada e a silvicultura nacional de nativas no centro da transição ecológica global. O setor esteve presente em peso na conferência, organizando, participando de painéis e jogando luz sobre os potenciais do Brasil.

O País reúne condições únicas: escala territorial, expertise florestal, agro tecnificado, biodiversidade sem paralelo e uma comunidade empresarial preparada para investir em soluções de alto impacto climático e social. Transformar esse potencial em realidade exige coordenação entre governo, setor privado, academia e sociedade. A restauração e a silvicultura de espécies nativas não são apenas uma agenda ambiental; são uma política de desenvolvimento, geração de renda e posicionamento global. Se o Brasil souber liderar esse movimento, poderá consolidar-se como a principal referência mundial em soluções baseadas na natureza – combinando floresta, inovação e prosperidade.

Últimas Notícias

Primeira fábrica de celulose do Paraguai já tem créditos de carbono aprovados antes de sua instalação

Paracel, primeira fábrica de celulose do Paraguai, tem 191.809 créditos de carbono aprovados e avança com obras do polo industrial e acordo com a Sudati.

Brasil bate recorde na produção e exportação de celulose em 2025, aponta Ibá

A produção brasileira de celulose bateu recorde de 29,4 milhões de toneladas em 2025, enquanto as exportações chegaram a 20,7 milhões de toneladas, segundo o Relatório Anual 2026 da Ibá.

Desenvolvimento tecnológico, biorrefinaria e eficiência industrial marcam o último dia do Congresso ABTCP 2026

Rede Conecta, avanços em inteligência artificial na manutenção, pesquisas em biorrefinaria e celulose e iniciativas de formação profissional estiveram entre os destaques

Branded Contents

Como a Ambipar otimiza a gestão hídrica na indústria de papel e celulose através da dragagem sustentável

A Ambipar oferece serviços de dragagem hidráulica com desaguamento em geobags

LEMI Soluções Industriais: engenharia, previsibilidade e segurança para operações de alta criticidade

Especializada em grandes paradas, ampliações e projetos de alta complexidade, a Lemi atende importantes grupos

Compartilhar

Newsletter

Mantenha-se Atualizado!

Assine nossa newsletter gratuita e receba com exclusividade notícias e novidades

Mais Colunas