O setor brasileiro de papelão ondulado começou 2026 com um resultado inesperadamente mais forte do que o mercado esperava. Em fevereiro, os dados parciais da Empapel indicam alta anual de 0,3% para 323 mil toneladas, apenas 6 mil toneladas acima das estimativas, enquanto, em janeiro, a expedição cresceu 2,3% para 343 mil toneladas, quase 20 mil toneladas além das projeções e o melhor desempenho do mês na série histórica.
Depois de um 2025 mais fraco, marcado por incertezas e pela queda da expedição total, esse salto inicial sugeriria uma melhora, mas ainda não garantiria uma mudança de tendência, em nossa opinião.
Grande parte desse impulso no primeiro bimestre veio de fatores muito específicos no segmento de proteína animal, que responde por quase um quarto da demanda de caixas e chapas de papelão ondulado no país. A retomada das exportações de carne bovina para os Estados Unidos e a normalização das remessas de frango para a China, após meses de restrições sanitárias e comerciais, geraram um movimento concentrado de embarques no fim de 2025, com efeito direto sobre a demanda por embalagens no início deste ano.
O dado chama ainda mais a atenção porque ocorreu mesmo com um real mais forte contra o dólar, condição que costuma reduzir o ritmo das exportações e do consumo de papelão ondulado.
Mas o cenário à frente ainda exige cautela e muita atenção. O novo regime de cotas da China para 2026, que limita as importações de carne bovina a 1,1 milhão de toneladas, cerca de 400 a 600 mil toneladas abaixo do que exportamos ao país no ano passado, acrescenta um elemento importante de incerteza ao mercado brasileiro.
É possível que os exportadores brasileiros antecipem o máximo possível de volumes no primeiro semestre para garantir participação dentro do teto, sustentando a demanda por embalagens no curto prazo, mesmo com um câmbio menos favorável. Se isso acontecer, porém, o movimento pode ser seguido por uma freada brusca quando a cota se esgotar, e dependerá da capacidade das empresas de redirecionar parte desse volume a outros destinos, como os mercados da América do Sul e da Oceania, onde já possuem presença industrial.
Mesmo na melhor das hipóteses, há fatores que limitam a trajetória ao longo do ano. A tendência de valorização do real pressiona margens e reduz a atratividade das exportações de proteína e outros bens industrializados, o que tende a diminuir a necessidade de caixas no restante de 2026.
As projeções mais recentes indicam queda de 2% a 3,5% na produção de proteína animal no ano, o que praticamente elimina o pequeno crescimento previsto para as remessas de papelão ondulado, levando o setor a um cenário próximo à estagnação.
No mercado doméstico, o ambiente também é moderado. As famílias seguem pressionadas por endividamento elevado e crédito caro, o que restringe o consumo. Ainda assim, alguns fatores podem oferecer suporte pontual: o calendário de 2026, com mais feriados prolongados, costuma elevar o consumo de proteínas e bebidas; a Copa do Mundo tende a impulsionar as vendas ligadas ao varejo alimentar e ao setor de eletroeletrônicos; e o ciclo eleitoral aumenta a demanda logística, inclusive pelo uso de caixas para materiais eleitorais.
Há ainda o pano de fundo das tensões no Oriente Médio, que elevam os custos logísticos e podem afetar as exportações brasileiras de proteína para a Ásia, a África e a Europa. Mesmo que a região não seja um grande destino para o papel brasileiro, é um mercado crucial para carnes, e qualquer desvio de rotas ou aumento de custos tende a pressionar margens e reduzir volumes, com impacto indireto sobre o consumo de embalagens.
A região também é importante fornecedora de insumos agrícolas, lembrando que as cadeias globais permanecem vulneráveis a choques externos.
Em resumo, o desempenho excepcional de janeiro deve ser visto com parcimônia. O mês refletiu muito mais a normalização dos fluxos interrompidos no fim de 2025 do que uma virada clara na tendência.
Os fatores estruturais – câmbio valorizado, restrições externas, margens mais apertadas e um mercado doméstico ainda frágil – continuam presentes. Até que surjam sinais consistentes de melhora na demanda interna ou de maior estabilidade nos mercados de exportação, o cenário mais provável para 2026 permanece o de um ano de baixo crescimento, com risco de estagnação, e a convergência do resultado preliminar de fevereiro às nossas projeções, inalteradas, reforça esta percepção.
Por mais animadores que pareçam os números do primeiro bimestre, os riscos para o ano sugerem que o caminho à frente está longe de ser simples.
Como resultado, estamos mantendo nossa previsão para 2026 inalterada: baixo crescimento, de 0,9% em relação a 2025, no melhor dos casos, ligeiramente acima da projeção divulgada em janeiro de alta de 0,7% e refletindo, unicamente, a incorporação dos dados realizados acima do esperado para o primeiro bimestre.



