Debater sobre o momento do setor papeleiro na América Latina é como reencontrar um grande conhecido: lembranças familiares, algumas novas complexidades para explorar e compreender como passado e presente se conectam. Nos últimos meses, falei muito sobre tarifas e fricção de comércio, agribusiness e mudanças na demanda. Hoje, no apagar das luzes do ano, quero amarrar estes temas a uma reflexão sobre o que esperar para 2026.
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O primeiro ponto é um velho conhecido: a dependência do Brasil do agronegócio. Ao longo do ano, fabricantes de papelão ondulado lidaram com oscilações na expedição e tomaram alguns sustos, enquanto os corredores de comércio internacional de proteína animal ficaram fechados devido ao surto de gripe aviária no segundo trimestre e, em julho, às tarifas impostas pelos EUA contra o Brasil. Agora, esses canais estão se reabrindo, e esperamos que a expedição volte a subir.
Se 65% da sua demanda por papel depende do carregamento de um caminhão com alimentos (ou 25%, se estivermos falando apenas de carne bovina ou de frango), você aprende rapidamente o quanto sua cadeia de valor está exposta a um único setor. Ao mesmo tempo, essa exposição ensina resiliência. A retomada das exportações do setor de proteínas animais obriga todos na cadeia a perguntar: “Onde mais podemos encontrar demanda se surgir o próximo contratempo, mesmo com a atividade industrial em desaceleração?”. É uma lição de não colocar todas as esperanças em um único ramo de atividade e de estar pronto para ajustar as velas quando o vento mudar.
Depois vem a fricção de comércio. As recentes medidas comerciais do México (as tarifas de importação de 25% a 35% em 2024, novas tarifas antidumping impostas em 2025 e, mais recentemente, as tarifas espelhadas que seguem o exemplo de Washington) não são medidas aleatórias de mero protecionismo. É o trabalho de um país reivindicando seu lugar como guardião de uma organização industrial baseada em nearshoring (relocalização produtiva para países geograficamente próximos). Produtos de papel que já sofreram tarifação pelos EUA não podem mais escorregar para lá por meio do México: o portão está fechado.
A lógica por trás disto é uma lição de cadeias de valor: se alguém constrói uma cadeia de valor na fronteira, precisa tanto de muros resistentes quanto de portas abertas. O atrito no comércio internacional não é apenas algumas semanas de contêineres parados; é um lembrete de que resiliência em uma cadeia de valor moderna significa entender as regras do jogo, repensar como se enviam mercadorias e ter destinos alternativos em mente antes de carregar o próximo contêiner.
E há uma terceira batida nesse mesmo ritmo. Se o portão no México desacelera os fluxos da China e de terceiros, esses produtos não desaparecem, e sim transbordam e precisam ir para outros lugares. Exportadores asiáticos, barrados no México, voltam a dar atenção ao sul das Américas. Argentina, Peru, Brasil são uma válvula de escape para a pressão asiática. Para uma região que às vezes é nota de rodapé em uma história global do setor papeleiro, ser o destino “outro” é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma nova forma de exposição.
Voltamos a falar de resiliência ao apontar que, para os produtores de papel cartão e papéis gráficos sul-americanos, esse redirecionamento de cargas pode ser um golpe doloroso, fazendo as margens sangrarem ainda mais.
Esses três retratos, de um soluço na cadeia de proteínas animais, de um portão erguido pela lógica do nearshoring e de uma válvula abrindo para a América do Sul, não são pontos desconectados. São faces da mesma história: cadeias de valor resilientes, que se sobram, envergam, mas não quebradas pelo atrito comercial; indústrias expostas por se apoiarem fortemente em um único setor, mas fortalecidas por aprenderem a olhar além dele; mercados que se reduzem em uma direção e se expandem em outra.
A narrativa não é “as coisas desaceleram” ou “as coisas aceleram”, mas sim, “as coisas se reconfiguram”. Como alguém que pensa em commodities desde 2013 e vive entre dados, teoria econômica e conversas com clientes, posso dizer: resiliência não nasce da certeza, mas de fazer as perguntas certas hoje, como “quais fluxos têm maior probabilidade de serem bloqueados? E como fica o equilíbrio entre oferta e demanda neste contexto?”.
Acreditamos que a demanda por proteínas deve se recuperar, impulsionando o mercado de papel ondulado. Também esperamos que o atrito nas fronteiras comerciais no México continuará levando os exportadores da América do Sul a buscar cadeias de suprimentos mais ajustadas às novas regras. Além disso, a América do Sul tende a se tornar um importante centro de exportações de papel oriundas da Ásia, agora deslocadas da América do Norte.
Em 2026, a dinâmica entre exposição e resiliência será crucial: quem planejar mercados alternativos, reestruturar suas cadeias de valor e permanecer atento às mudanças irá se destacar em um mundo em constante transformação. Fazer perguntas inteligentes hoje é essencial para enfrentar o futuro com confiança.
2026
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