A reciclagem do papel é um processo industrial?

A reciclagem de papel envolve processos complexos, com variação de disponibilidade de aparas, normas específicas e atuação de diversos atores para garantir sua eficiência e viabilidade econômica

A reciclagem do papel é um processo industrial e, como tal, envolve um conjunto de operações unitárias e inúmeras medições, desde a chegada da matéria-prima, no caso as aparas de papel, até o produto final (Figura 1). A reciclagem de papel, como todo processo industrial, também envolve aspectos particulares, entre eles cinco merecem destaque.

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Resposta elaborada por: Maria Luiza Otero D’Almeida Lamardo ([email protected]) – Unidade de Tecnologias
Regulatórias e Metrológicas (TRM) do Instituto de Pesquisas Tecnológica do Estado de São Paulo (IPT)

LEIA AQUI O ARTIGO ORIGINAL PUBLICADO NA EDIÇÃO DE JANEIRO DA REVISTA O PAPEL

  1. A reciclagem de papel exige aparas condizentes com o produto que será fabricado: há no mercado vários tipos de aparas, mas os fabricantes de papel com fibras recicladas usam apenas as aparas adequadas aos produtos que fabrica. A norma ABNT NBR 158439 – Aparas de papel e papelão ondulado – Classificação, de 2009, foi revisada em 2024, no entanto, passa ainda pelos processos necessários para sua publicação. Ela trará as oito classificações e as trinta categorias existentes na norma de 2009, com adição de mais três categorias (uma em papelão ondulado e duas em cartão). A norma revisada também terá, para algumas categorias, modificações nos teores máximos de: umidade; impureza (material que compromete o processo de fabricação e pode ser retirado antes do seu início); e material proibitivo (material que compromete a qualidade do papel fabricado e não pode ser retirado antes do processo de fabricação). Os fabricantes de papel com fibras recicladas compram as aparas de acordo com a classificação constante na norma mencionada (Figura 2).
  2. A reciclagem de papel envolve vários atores: há aqueles que coletam as aparas (catadores, cooperativa de catadores, pontos de entrega voluntário, coleta seletiva municipal e centros de triagem, como mostra a Figura 3); os que compram as aparas coletadas e as vendem (aparistas), geralmente após fazer fardos (Figura 4); e os fabricantes de papel com fibras recicladas que compram os fardos de aparas de acordo com o produto que vão fabricar.
  3. A reciclagem depende da disponibilidade de aparas: que, por sua vez, depende de flutuações e movimentação do mercado. Por exemplo, o maior volume de vendas em determinados segmentos, como o de livros, jornais, revistas e papelaria e o de hipermercados e supermercados, provavelmente remeterá a um maior descarte de papel e caixas de papelão ondulado, respectivamente. Entretanto, essas variações são muito dinâmicas, praticamente mês a mês. Leis, regulamentos e portarias governamentais também podem vir a afetar a disponibilidade de aparas. Por exemplo, a RDC 885 da ANVISA, de 10/07/2024, que consiste em um projeto piloto que substitui, para determinados remédios, a bula impressa por QR CODE nas embalagens dos remédios, remeterá a uma diminuição do descarte desse tipo de impresso. A disponibilidade de aparas, que remete a flutuações de mercado, tem influência no preço das aparas. O Quadro 1 exemplifica o fato no caso de categorias das aparas de papelão ondulado.
  4. Nem todo papel pode ser reciclado: é necessário conhecer o que pode ou não ser reciclado, para um descarte adequado, assim como o modo que o produto de papel deve ser descartado. Processos podem ser desenvolvidos para produtos de papel considerados de difícil reciclagem, como os das embalagens longa vida, formada por camadas de papel, plástico e alumínio. Para estas, existem unidades fabris voltadas especificamente para sua reciclagem, que foram criadas apenas porque foi garantido volume suficiente e disponibilidade contínua desse tipo de material, remetendo a um processo economicamente viável. Deve ser ressaltado que, a boa vontade de separar papel para reciclagem não é tudo, pois esta será inútil caso não exista no local a estrutura de cadeia que permita que o material siga para a reciclagem.
  5. O Brasil tem posição de destaque no que se refere à reciclagem de papel: 66,9% é o índice de reciclagem geral para o papel e 85% o índice de reciclagem quando se considera apenas embalagens de papelão ondulado e de cartão. Porém, ainda há que se avançar na reciclagem de outros tipos de aparas de embalagem, como no caso de embalagens longa vida, cujo índice de reciclagem é de 39,1%. No caso destas aparas, o valor baixo de reciclagem talvez se explique pela necessidade de unidades fabris apropriadas para sua reciclagem, pelas distâncias entre locais de coleta e unidades fabris que reciclam esse tipo de aparas e pela reciclagem desse tipo de aparas gerar um resíduo de plástico e alumínio que requer destino correto (Figura 5).

Para concluir, observa-se que em algo aparentemente simples, como o de separar aparas para reciclagem, existe uma cadeia bastante complexa tanto em termos de tecnologia como de mercado.

1Revista O Papel, agosto de 2024. Disponível em: https://www.opapeldigital.org.br/pub/papel/?numero=131&edicao=12239#page/20.
Acesso em: 26 out. 2024.
2
CEMPRE – Compromisso empresarial para reciclagem. Disponível em: https://cempre.org.br/taxas-de-reciclagem/. Acesso em: 26 out. 2024.

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coluna: Maria Luiza Otero D’Almeida, pesquisadora na Unidade de Tecnologias Regulatórias e
Metrológicas do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas –, e Viviane Nunes, coordenadora Técnica
da ABTCP, pelos e-mails: [email protected] e [email protected]

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Maria Luiza Otero D'Almeida
Pesquisadora na Unidade de Tecnologias Regulatórias e Metrológicas do IPT

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