Reciclagem: demanda, indústria e mercado

Desde o mês de abril deste ano o governo americano, por meio do próprio presidente Donald Trump, vem estabelecendo uma nova forma de se relacionar com as demais nações mundiais por imposição de tarifas comerciais. Num primeiro momento, as tarifas tinham um caráter de reciprocidade, igualando-as aos valores estabelecidos por outros países aos produtos americanos. Mas isso logo se transformou numa nova forma de os Estados Unidos estabelecerem suas relações com o mundo, somando a interesses geopolíticos, econômicos e até pessoais.

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Em julho último, o governo americano estabeleceu uma interlocução com os países por meio de cartas e, logo no início do mês, o governo brasileiro foi surpreendido com o anúncio de uma tarifa de 50% em todos os produtos exportados para aquele país a partir do dia primeiro de agosto desde ano, levando apreensão a diversos setores da indústria nacional.

O governo brasileiro teve, como parte de sua estratégia, além da negociação direta entre os próprios empresários para traçar um plano de contingenciamento, uma investida internacional para abrir a indústria exportadora brasileira para novos mercados, seja com países afetados por méritos geopolíticos como os BRICS, seja com aqueles que haviam sido sobretaxados por questões de reciprocidade, como México, Canadá e países da União Europeia.

Por mais que os produtos analisados não estejam no foco das tarifas americanas ou mesmo dentre os setores inseridos no pacote de medidas previsto pelo governo, partimos do entendimento que este rearranjo no comércio mundial estabelece a necessidade de se atentar aos mercados existentes e a oportunidade de constituirmos novos relacionamentos comerciais.

Como forma de contribuir com o setor de embalagens de papel, a coluna MAPA.SA deste mês traz uma análise sobre o comércio exterior do kraftliner e testliner, conforme as informações oficiais da balança comercial de 2024, obtidas através da UN Comtrade Database.

A imagem Balança Comercial 2024 (kraftliner + Testliner) dos Principais Países traz em destaque os volumes acumulados de exportação e importação brasileira da China, Itália, México, Canadá, África do Sul e Estados Unidos.

De um lado, temos a China como maior importadora mundial desses produtos, que consumiu cerca de 5,25 milhões de toneladas em 2024 desses produtos referenciados na imagem, enquanto do outro lado da balança temos os Estados Unidos como maior exportador, com cerca de 5 milhões de toneladas. Segundo dados complementares da American Forest & Paper Association (AF&PA), os principais destinos do kraftliner americano são o México, Canadá, China e alguns países da Europa, como Alemanha e Países Baixos, que somados representam cerca de 75% do destino das exportações americanas.

Já o Brasil, que não possui uma proeminência no comércio exterior para esse produto, circula em torno de 10% nesta ordem de grandeza, exportando cerca de 450 mil toneladas em 2024. Em relação aos parceiros comerciais destacados na imagem, estes representam 20% das exportações brasileiras. Mas, nesse momento, mostram-se como oportunidade para ampliar o relacionamento comercial e diplomático e, com isso, favorecer as importações dos nossos produtos por países como a Itália e México, que neste momento possuímos uma representação em suas importações de apenas 2,8% e 2,4%, respectivamente.

Os principais destinos do kraftliner brasileiro são os países da América do Sul, como Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Colômbia, Bolívia, Uruguai e Peru, onde somados representam 60% do destino do kraftliner brasileiro. A imagem Balança Comercial 2024 (kraftliner + Testliner) Principais Países da América do Sul traz a representatividade das exportações brasileiras para os principais destinos sul-americanos.

Para a maioria dos países, o Brasil representou em 2024 mais de 50% das importações de kraftliner, totalizando cerca de 266 mil toneladas. Por ter baixa representatividade na balança comercial, esses países podem não ser alvo de grandes investidas internacionais para novos negócios, passando a ser vistos como um mercado que deve ter seu relacionamento próximo, em especial com a Argentina, que possui um alinhamento ideológico com o governo americano, para que o Brasil continue se consolidando como principal fornecedor desses produtos para seus países vizinhos.

Ao analisarmos os volumes exportados no primeiro semestre deste ano para os países analisados, em comparação ao mesmo período anterior, percebemos que a indústria nacional já parece sofrer efeitos positivos deste novo momento. As exportações para a Itália, México, Estados Unidos e para a Índia sofreram uma variação positiva significativa, indo de 28% até mais de 300% no aumento nas exportações para o mercado americano. Enquanto para a África do Sul e para a China houve uma variação negativa de 90% para o país africano e de -30% para a maior compradora mundial destes produtos.

INDICADORES DO SETOR DE APARAS: preços em queda, exportação em destaque

A indústria nacional demonstrou uma estabilidade em junho passado, registrando variação de 0,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior e, no caso dos bens de consumo, que é indicativo para o desempenho das embalagens, mais uma leve queda de 0,6% no período considerado, e de -1,0% no acumulado em 2025.

Nos outros comparativos, a indústria nacional apresentou uma variação positiva no acumulado no ano, de 1,2%, e de 2,4% nos últimos 12 meses.

Já no comércio, o volume de vendas, na média dos dez setores acompanhados pelo IBGE, registrou quase uma estabilidade com o mês anterior, apontando apenas 0,3% de variação positiva no comparativo interanual dos meses de junho. Analisando os setores geradores de aparas marrons, observa-se uma variação negativa dos ramos de livros, jornais, papelaria e revistas e do ramo de alimentos e bebidas, que registraram uma queda de 1,2% e 0,5%, respectivamente.

Já o ramo de hipermercados e supermercados registrou aumento de 2,7%, bem como outros setores que também impactam na geração de aparas, como artigos farmacêuticos, perfumaria, cosméticos, outros artigos de uso pessoal e tecido, vestuário e calçados, com aumentos na ordem de 1,9%, 2,0% e 6,4%, respectivamente.

Ainda segundo o IBGE, no acumulado do ano, o volume de vendas no comércio por estados está 1,8% acima do verificado em igual período de 2024, ainda tendo o estado do Rio de Janeiro, que é um dos grandes geradores de aparas, demonstrando queda em torno de 2,1%.

Os demais estados que se destacam na geração de aparas, como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, demonstram resultados positivos para o período nos montantes de 1,2%, 1,8% e 4,2%, respectivamente.

Os preços praticados para aparas marrons, ondulados tipo I e II, foram comercializados respectivamente por R$ 1.364,27 e R$ 1.259,05 a tonelada fob depósito, com variação em relação a junho negativa em -1,75% para o ondulado I e de -2,58% no ondulado II e, com esse resultado, acumulam no ano um aumento de 17,58% e 23,41%, respectivamente.

A apara branca segue perdendo valor em julho; a apara branca I e a branca III foram comercializadas por R$ 2.685,00 e R$ 1.079,52 fob depósito a tonelada, 2,05% e 1,11% abaixo do valor verificado no mês anterior, respectivamente. Já a branca II registrou um valor próximo ao observado no mês anterior por R$ 1.452, com variação positiva de 0,68% em relação a junho.

Em termos de volume, a expedição de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado alcançou 338.545 toneladas no mês, uma queda de 5,8% em relação ao mês de maio, mas com volumes acima dos 330 mil toneladas para o mês de junho pelo quinto ano seguido. Quando consideramos o desempenho por dia útil, o resultado passa a indicar um aumento de 2,5%, pois este ano o mês teve um dia útil a menos que em junho de 2024.

Nas exportações, o destaque fica para o kraftliner, que fechou o mês de julho com 47.360 toneladas exportadas, 13% acima do mês anterior. Quando observado no acumulado do ano, este valor indica uma alta de 14%. Os volumes embarcados se apresentam praticamente acima das 40 mil toneladas pelo quinto mês consecutivo.

Também foi relatado pelos fabricantes de miolo uma queda significativa no preço do produto em junho, sendo negociado em média por R$ 4.711,59 a tonelada com impostos, uma queda de 3,6% com relação ao mês anterior, mas ainda registrando uma alta no ano de 3,30%.

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Filipe Brumatti de Souza
Engenheiro de Alimentos formado pela UNESP e com MBA em Gestão de Projetos pelo SENAI. É sócio fundador da MAPA.SA Consultoria e Análises Socioambientais e coordenador do Projeto Conexões. E-mail: [email protected]

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