Desde março de 2026, esta coluna percorre o Brasil região a região, mapeando os gargalos da cadeia de reciclagem de papel. A premissa estabelecida na edição inaugural permanece como fio condutor: o País gera 7,8 milhões de toneladas anuais de resíduos de embalagens de papel, mas a capacidade efetiva de recuperação permanece muito aquém desse potencial, não por falta de indústria recicladora, mas pela fragilidade persistente da etapa intermediária: coleta estruturada, triagem qualificada e consolidação de cargas.
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Cada região trouxe sua própria forma de ilustrar esse problema. O Norte, analisado em abril, foi o caso-limite: 2.930 km de distância operacional, 161 organizações de catadores em 89 municípios e capacidade instalada de apenas 74 mil toneladas diante de uma demanda de 580 mil. Ali, a barreira era geográfica e estrutural ao mesmo tempo: longe de tudo, com pouco de tudo.
O Nordeste, em maio, mostrou que o problema pode ter outra face: geração expressiva, mais de duas vezes a do Norte, mas coleta fragmentada, com apenas 75 dos 1.794 municípios declarando coleta seletiva porta a porta. A distância não era o obstáculo; era a ausência de estrutura onde o material já existia. Em junho, o Centro-Oeste inverteu o sinal novamente: urbanização alta, menores distâncias da série, mas a menor rede de cooperativas em números absolutos. A lição foi que condições favoráveis não constroem capacidade instalada sozinhas.
Esta edição chega ao Sudeste. E aqui, pela primeira vez na série, o cenário se inverte de forma quase completa: a região concentra a maior geração, a maior rede de catadores e as melhores condições econômicas do Brasil. O desafio, como se verá, é de outra natureza e, por isso mesmo, mais revelador.
O Sudeste é a menor região do Brasil em extensão territorial, com pouco menos de 925 mil km², mas reúne os quatro estados mais populosos e economicamente mais dinâmicos do País: São Paulo (45,6 milhões de habitantes), Minas Gerais (21,4 milhões), Rio de Janeiro (17,2 milhões) e Espírito Santo (4,2 milhões), totalizando aproximadamente 88,4 milhões de pessoas, cerca de 42% da população brasileira, segundo estimativas do IBGE para 2024.
A taxa de urbanização supera 93%, e a renda per capita média é a mais alta entre as regiões, impulsionada pelo peso de São Paulo, o maior polo industrial e de consumo do Brasil. Esse perfil define o ponto de partida para qualquer análise da cadeia de reciclagem: o Sudeste não é apenas a maior fonte de resíduos de embalagens de papel do Brasil, é também o maior mercado para as aparas recicladas, o que, em tese, deveria criar as condições mais favoráveis para o fechamento do ciclo. Como se verá, a realidade é mais complexa.
Os números confirmam a escala: com base na metodologia adotada ao longo da série, estima-se que o Sudeste gera aproximadamente 3.705 mil toneladas anuais de resíduos de embalagens de papel, cerca de 47% do total nacional. Para se ter a dimensão desse volume, é quase cinco vezes o gerado pelo Nordeste, a segunda maior geradora da série até aqui, e mais de seis vezes o do Centro-Oeste. Essa concentração não é acidental: reflete a densidade industrial da região, o volume do comércio e o padrão de consumo de uma população que, por si só, seria a quinta maior da América do Sul. O Sudeste, mais do que qualquer outra região, é onde a logística reversa de papel se decide.



